UFMG transforma rejeitos de mineração em cimento e testa tecnologia em casa sustentável
Tecnologia desenvolvida em Minas Gerais utiliza resíduos minerais na produção de cimento e argamassa. Casa experimental de 48 m² consumiu cerca de 20 toneladas de rejeitos.
Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) desenvolveram uma tecnologia para transformar rejeitos de mineração em cimento e argamassa, criando uma alternativa para o reaproveitamento de resíduos minerais e sua utilização como matéria-prima na construção civil.
O projeto utiliza rejeitos provenientes de uma barragem da Gerdau, na região de Ouro Preto (MG). Para testar as aplicações do material, os pesquisadores construíram uma casa experimental de 48 m², na qual foram utilizadas aproximadamente 20 toneladas de rejeitos de mineração.
A pesquisa aproxima dois setores que enfrentam importantes desafios ambientais: de um lado, a mineração e a necessidade de encontrar novas destinações para seus resíduos; do outro, a indústria da construção e a busca por materiais e processos de menor impacto ambiental.
Como rejeitos de mineração podem virar cimento?
Segundo Evandro Moraes da Gama, professor da Escola de Engenharia da UFMG, o rejeito utilizado no projeto é composto por materiais como areia, ferro e pozolana.
A presença da pozolana é particularmente importante para a aplicação na construção.
Materiais pozolânicos podem participar de reações que contribuem para a formação de compostos cimentícios, permitindo sua utilização em formulações destinadas à produção de materiais para a construção civil.
“É um cimento de altíssima qualidade”, afirmou o pesquisador ao comentar o desempenho obtido no projeto.
Além do cimento, os resíduos minerais foram utilizados na produção de argamassas para assentamento de blocos e revestimentos cerâmicos.
Casa experimental utilizou 20 toneladas de rejeitos de mineração
Para avaliar as possibilidades de aplicação da tecnologia, a UFMG construiu uma residência experimental de 48 metros quadrados e sete cômodos.
A construção utilizou aproximadamente 20 toneladas de rejeitos.
O material reaproveitado foi empregado em diferentes componentes da residência, incluindo paredes, piso, teto, bancada da cozinha, argamassas e elementos de acabamento.
A iniciativa permitiu testar o uso do material para além das condições de laboratório, demonstrando diferentes possibilidades de aplicação dos resíduos minerais na construção.
Residência reúne outras tecnologias sustentáveis
O reaproveitamento dos rejeitos não é a única solução ambiental presente na casa experimental.
A residência também recebeu tecnologias relacionadas ao uso eficiente de recursos e à redução de impactos ambientais.
Entre elas estão um sistema ecológico de tratamento de esgoto, geração de energia solar, pavimento permeável no quintal e soluções para aproveitamento da água da chuva.
O projeto funciona, portanto, como um ambiente de demonstração de diferentes tecnologias voltadas à construção sustentável.
Planta para produzir cimento pode custar menos que fábrica convencional
Outro ponto destacado pelos pesquisadores é o potencial econômico da tecnologia.
Segundo as informações apresentadas pelo projeto, uma planta destinada à produção desse tipo de cimento poderia representar cerca de 10% do investimento necessário para uma fábrica convencional.
Uma das razões apontadas é a menor necessidade de energia térmica durante o processo produtivo.
Caso essa diferença seja confirmada em aplicações industriais de maior escala, o aspecto econômico pode favorecer a utilização da tecnologia tanto por empresas de mineração interessadas no reaproveitamento dos rejeitos quanto pela cadeia de materiais para construção.
Rejeitos podem deixar de ser apenas um passivo da mineração
O desenvolvimento da tecnologia está relacionado ao conceito de economia circular na mineração, no qual materiais resultantes da atividade produtiva são reaproveitados como insumos para novas aplicações.
Francisco de Assis Couto, gerente de Sustentabilidade da Gerdau, destacou essa possibilidade ao comentar a construção experimental.
“Com essa casa, mostramos à sociedade que é possível ter um aproveitamento sustentável dos rejeitos de mineração”, afirmou.
A transformação dos resíduos em materiais para construção pode criar uma nova rota de destinação para parte dos rejeitos gerados pela atividade mineral.
Economia circular aproxima mineração e construção civil
A possibilidade de utilizar rejeitos minerais na produção de cimento e argamassa abre uma conexão direta entre duas grandes cadeias industriais.
Para a mineração, tecnologias desse tipo podem ampliar as alternativas de reaproveitamento de materiais que tradicionalmente precisam ser armazenados ou destinados após o beneficiamento do minério.
Para a construção civil, os rejeitos podem representar uma fonte alternativa de matérias-primas para determinados materiais e aplicações.
A viabilidade em grande escala, entretanto, depende de fatores como caracterização dos rejeitos, composição mineralógica, desempenho dos materiais, logística, custos de processamento, requisitos técnicos e atendimento às normas aplicáveis à construção civil.
Tecnologia transforma rejeito em matéria-prima
Mais do que encontrar uma utilização pontual para resíduos da mineração, a pesquisa da UFMG demonstra uma mudança de perspectiva sobre esses materiais.
Um rejeito que anteriormente representava apenas uma necessidade de armazenamento e gestão pode passar por processamento e caracterização para adquirir uma nova função dentro de outra cadeia produtiva.
A casa experimental construída em Minas Gerais mostra uma das possibilidades dessa transformação: usar materiais provenientes da mineração como insumos para produzir componentes destinados à construção civil.
Se tecnologias como essa alcançarem escala industrial, rejeitos minerais poderão assumir um papel cada vez maior na economia circular, conectando mineração, engenharia de materiais, pesquisa acadêmica e construção sustentável.




Um comentário em “UFMG transforma rejeitos de mineração em cimento e testa tecnologia em casa sustentável”