AngloGold Ashanti conclui descaracterização de barragem em MG com investimento de R$ 253 milhões
Barragem CDS II, na Mina Córrego do Sítio, em Santa Bárbara, entra em fase de monitoramento até o final de 2027 após conclusão das obras de descaracterização.
A AngloGold Ashanti concluiu a descaracterização da Barragem de Contenção de Rejeitos CDS II, localizada na Mina Córrego do Sítio, em Santa Bárbara (MG). Com investimento de R$ 253 milhões, a estrutura entrou agora em uma etapa de monitoramento ativo, prevista para seguir até o final de 2027.
A revista Minérios & Minerales visitou a área onde foram executadas as obras da primeira barragem descaracterizada pela companhia em Minas Gerais. Outras quatro estruturas da mineradora no estado estão em diferentes etapas do processo ou possuem projetos de descaracterização previstos.
Com 82 m de altura, 540 m de comprimento de crista e aproximadamente 9,8 milhões de m³ de materiais no reservatório, a CDS II exigiu uma extensa campanha de investigação geotécnica antes da conclusão das intervenções.
Segundo Bernardo Zanon, diretor de Geotecnia da AngloGold Ashanti, compreender detalhadamente a estrutura foi uma das etapas fundamentais para definir como as obras seriam executadas.
“Nós fizemos uma revisão do projeto para entender melhor a estrutura. Fizemos uma campanha exaustiva de sondagem. A gente conseguiu modelar a estrutura e a sua fundação. Nós chegamos a ter quatro máquinas de sonda trabalhando ao mesmo tempo no local”, explica.
Sondagens ajudaram a definir projeto de descaracterização da barragem
Construída em 1984 pelo método de linha de centro, a CDS II passou por diferentes alteamentos ao longo de sua operação. A estrutura também recebeu um contrapilhamento a jusante como medida de reforço.
A AngloGold Ashanti assumiu a operação da planta em 2011, quando adquiriu o ativo de outra mineradora. Dez anos depois, a utilização da barragem foi encerrada.
O processo de descaracterização começou em 2022 pelo método de contrapilhamento do reservatório, mas os trabalhos foram interrompidos para uma revisão do projeto.
Após novos estudos, as intervenções foram retomadas no final de 2024 e concluídas no final de 2025.
A campanha de investigação permitiu identificar as diferentes camadas existentes no reservatório e avaliar características e resistência dos materiais.
“A gente precisava fazer a análise da informação correta, como deformações e fator de segurança”, afirma Zanon.
Amostras dos materiais depositados na estrutura também foram coletadas para ensaios laboratoriais destinados a avaliar seu comportamento.
Segundo o diretor, os dados obtidos ajudaram não apenas no dimensionamento da solução, mas também no planejamento da execução e na definição das etapas necessárias para reduzir os riscos durante as obras.
Proximidade de comunidade aumentou complexidade do projeto
A CDS II apresentava características que exigiam atenção adicional da equipe de engenharia.
“Havia uma complexidade nesse projeto. Não era uma barragem simples. A CDS II tinha uma particularidade por conta de comunidade muito próxima e falta de dados da estrutura antes da aquisição da planta pela AngloGold”, relata Zanon.
Diante desse cenário, a companhia realizou também um processo de design review, ou revisão do projeto.
“O processo de governança nosso foi muito robusto. A gente, inclusive, fez o design review”, acrescenta.
A combinação de investigação de campo, modelagem da estrutura, ensaios de laboratório e revisão de engenharia serviu de base para definir a solução posteriormente executada.
Como foi feita a descaracterização da CDS II
As obras mobilizaram aproximadamente 350 profissionais e começaram com intervenções destinadas a melhorar o sistema de drenagem da área.
O período em que a barragem permaneceu sem receber rejeitos contribuiu para a execução dos trabalhos, já que havia pouca água acumulada no reservatório.
Um dos desafios era justamente impedir que as águas, principalmente provenientes das chuvas, fossem direcionadas novamente para a área em processo de descaracterização.
Para isso, foram construídos canais de drenagem de grandes dimensões.
“A gente preencheu a barragem com solo compactado. A última camada é de argila e depois vem um top soil. Em seguida, faz-se a revegetação para integrar a área ao meio ambiente”, explica Zanon.
A camada de argila funciona como elemento de baixa permeabilidade, dificultando a infiltração da água.
O terreno também recebeu um processo de regrade, ou renivelamento, criando caimentos destinados a conduzir a água para os sistemas de drenagem.
“A água fica o menor tempo possível sobre o reservatório”, afirma.
Sistema de drenagem controla água da chuva
A estrutura descaracterizada conta com diferentes sistemas para direcionar a água.
Há canais no antigo reservatório que conduzem o fluxo para as ombreiras e sistemas de drenagem distribuídos pelas bermas do talude.
A água captada segue por canais de concreto armado e passa por um sistema com pedra calcária antes de ser encaminhada para um ribeirão próximo.
Um reservatório de amortecimento também ajuda a controlar a vazão antes da liberação da água.
A estratégia busca evitar que o antigo reservatório volte a acumular volumes significativos de água, uma das características essenciais para que a estrutura deixe de funcionar como barragem.
Por que a AngloGold optou pelo contrapilhamento
Segundo a AngloGold Ashanti, a solução de fechamento adotada foi considerada mais viável do que a remoção total ou parcial dos materiais armazenados na CDS II.
As dimensões da estrutura exigiriam uma operação de grande escala para escavar, transportar e depositar os materiais em outro local.
Além da complexidade logística, essa alternativa poderia gerar novos impactos ambientais associados à movimentação e disposição do material.
A solução adotada permitiu manter os materiais na própria área, remodelar a estrutura, controlar a drenagem superficial e promover posteriormente a revegetação.
Mais de 60 pontos monitoram estrutura descaracterizada
Com as obras concluídas, a CDS II entrou em uma nova fase.
A estrutura será submetida a dois anos de monitoramento ativo, com acompanhamento pelo Centro de Monitoramento Geotécnico da AngloGold Ashanti, localizado em Nova Lima (MG).
Entre os instrumentos utilizados estão piezômetros, indicadores de nível de água (INA), medidores de vazão e equipamentos de monitoramento superficial.
Atualmente, mais de 60 marcos e instrumentos acompanham as condições da estrutura.
Equipes de manutenção também realizam inspeções periódicas no local.
O objetivo é acompanhar o comportamento da área após a conclusão das intervenções e verificar a evolução dos parâmetros geotécnicos e hidráulicos considerados no projeto.
AngloGold tem outras quatro barragens em processo de descaracterização em MG
A conclusão da CDS II faz parte de um programa mais amplo da AngloGold Ashanti em Minas Gerais.
Na Mina Cuiabá, em Sabará, a companhia prevê concluir a descaracterização de outra barragem, também pelo método de contrapilhamento, no primeiro trimestre de 2027.
No site Queiroz, em Nova Lima, existem três estruturas: Cocuruto, Rapaunha e Calcinados.
A barragem de Calcinados está em processo de descaracterização utilizando metodologia semelhante à empregada em Córrego do Sítio. A previsão é de que os trabalhos prossigam até 2032.
Já Cocuruto e Rapaunha encontram-se em fase de elaboração dos respectivos projetos de descaracterização.
Operações adotam disposição de rejeitos a seco
Desde 2022, segundo a AngloGold Ashanti, suas operações adotam a disposição de rejeitos a seco.
Leia também: Gabriel é Operador de Equipamentos de Mina, na CSN Mineração
A mudança acompanha uma transformação mais ampla na gestão de rejeitos da companhia e ocorre paralelamente ao processo de eliminação das estruturas existentes.
Na Mina Córrego do Sítio, as atividades de mineração foram suspensas em agosto de 2023 em razão, segundo a empresa, do aumento dos custos de produção.
Independentemente da situação operacional da mina, a CDS II entra agora em uma etapa distinta de seu ciclo de vida.
Depois de décadas de operação, alteamentos, reforços estruturais e anos de estudos e intervenções, o desafio da engenharia passa a ser outro: acompanhar o comportamento de uma área que deixou definitivamente de exercer a função de barragem.



