REMINISCÊNCIAS DO PITINGA: ANOMALIA CINTILOMÉTRICA E O PROGRAMA DE RADIOPROTEÇÃO

REMINISCÊNCIAS DO PITINGA: ANOMALIA CINTILOMÉTRICA E O PROGRAMA DE RADIOPROTEÇÃO

Por Rotênio Chaves

Fui contratado pela Mineração Taboca, então empresa do Grupo Paranapanema que lavrava minérios aluvionares de cassiterita no Distrito Estanífero de Rondônia, em 1983, e se preparava para implantar seu principal projeto no Norte do Estado do Amazonas, a Mina do Pitinga. 

Eu havia trabalhado na ICOMI, na mina de minério de manganês da Serra do Navio, um projeto exemplar no Amapá, onde fora responsável pela aplicação da separação em meio denso na concentração do minério. Transferido para o Rio de Janeiro, durante três anos na PROMON Engenharia, fui engenheiro sênior nos projetos de carvão da CRM – Cia Riograndense de Mineração, e no projeto de bauxita ao Norte da Mineração Rio do Norte – MRN. Em seguida, como consultor independente, fiz a regulagem da planta de concentração de diamantes em meio denso, num projeto da Camargo Correia em Mato Grosso, gerenciado pelo eng° Wladimir Aps, que se tornaria meu amigo. Por indicação do Wladimir, procurei a Paranapanema para um contato comercial. Algum tempo depois, o Superintendente de Operação da Taboca me telefonou, e conversamos rapidamente. Era o geólogo Junichi Tomita, que me enviou passagem e as indicações para procurar o escritório da empresa em Manaus, para contratação imediata. Então, num dia 10 de julho, por coincidência dia do meu aniversário, lá estava eu para assinar um contrato com a Taboca, como engenheiro de processos metalúrgicos na implantação do Pitinga. 

Como não havia participado de nenhuma implantação de operações com minério aluvionar, tive algo como um choque cultural ao chegar no Pitinga nos seus primeiros tempos, mais um acampamento no meio da floresta, ao lado da pista do aeroporto no local conhecido como Madeira. O acampamento era próximo do Igarapé Jacutinga, e minha primeira função foi montar uma planta piloto de jigagem, para purificação do préconcentrado rico em zirconita e minerais de nióbio e tântalo. A zirconita, um mineral refratário, era especialmente danosa para a fundição de estanho (na Mamoré Metalurgia). Um mecânico da Taboca, Hugo, um boliviano, foi particularmente importante porque viabilizou a montagem de uma planta piloto com dois jigues tipo Yuba, com alimentação controlada de minério e de água de processo, o que me permitiu encontrar as regulagens ótimas para limpeza do préconcentrado, com  a consequente implantação da primeira Usina de Concentração final, com jigagem apenas. Mais tarde outra Usina foi implantada, com fluxograma que incluía mesas vibratórias, o que aumentou a recuperação de estanho no processamento final.

Como sempre me considerei um parceiro dos geólogos, desde a ICOMI na Serra do Navio, AP,  em pouco tempo estava acompanhando as novidades da pesquisa geológica. Duas frentes de lavra independentes haviam sido implantadas, uma no Igarapé Queixada, e outra no Igarapé Madeira. Não existia estrada entre essas duas frentes, e o trajeto era por aviões de pequeno porte, sem os bancos de passageiros, para transporte aéreo dos sacos de 50 kg cada, com a cassiterita do Queixada.

No Queixada, igarapé no Granito Água Boa, a mineralogia parecia mais simples, com cassiterita grosseira – a regulagem das préconcentradoras permitia a produção de um concentrado final, rico. A complexidade mineralógica parecia estar restrita à frente de lavra do Igarapé Madeira. Mais tarde provei que as duas frentes de lavra tinham a mesma mineralogia complexa, mas no Queixada tínhamos a cassiterita como mineral mais grosseiro, com grãos de 5, 6 mm, enquanto a zirconita e os minerais de nióbio e tântalo apareciam somente nas frações mais finas, sendo facilmente eliminados nos rejeitos dos jigues. No Madeira a zirconita era mais grosseira do que a cassiterita, e não era passível de ser eliminada na jigagem em três etapas das préconcentradoras.  

Minério Primário da Serra do Madeira

Certo dia um geólogo, com quem discutia os resultados da pesquisa, me procurou entusiasmado – estava com o resultado das análises das amostras da sondagem no Alto Igarapé Madeira, na sua nascente. “Descobrimos o minério primário, a área fonte!”. Também fiquei entusiasmado, e avaliei os resultados das análise químicas, chamando a atenção para um dado: o teor de urânio e de tório superava o teor de estanho nas amostras. Pedi uma cópia das análises, e passei a acompanhar mais de perto o andamento dos trabalhos. A pesquisa geológica visava a mineralização de estanho, mas o meu foco particular abrangia os possíveis problemas técnicos com a presença de substâncias radioativas. E passei a chamar a atenção da empresa para a presença dessas substâncias. 

Algum tempo depois fiquei conhecido como o “chato da radioatividade”…O engenheiro Otávio Lacombe, um dos sócios majoritários do Grupo Paranapanema, levou o assunto à sério, e uma análise radiométrica foi feita a seu pedido, e com minha insistência. Essa análise, inadvertidamente, apresentou resultado falho, indicando radioatividade abaixo dos limites das Normas da CNEN – Comissão Nacional da Energia Nuclear, o que tranquilizou a empresa. Mas, em determinado momento, final da década de 80, uma exportação de zirconita para o México, foi devolvida pelo comprador devido à radioatividade do concentrado. Então a CNEN entrou no circuito, confirmando em nova amostragem a radioatividade acima dos limites da Norma. O Presidente da CNEN era o físico Rex Nazaré Alves, uma das pessoas mais inteligentes e dinâmicas que conheci. De imediato, convenceu o Dr. Otávio Lacombe a patrocinar um levantamento radiométrico aéreo sobre a área do Pitinga, utilizando um helicóptero equipado com cintilômetros. O Rex levou para o Pitinga uma equipe de geólogos e físicos para estudar o que ele previa ser uma grande anomalia cintilométrica, que o levantamento acabou confirmando. Passei a representar o Grupo Paranapanema junto à CNEN. Mas era o início do Governo Collor que, como sua primeira providência, foi demitir a cúpula da CNEN, o Dr. Rex Nazaré inclusive. Mas ele não desistiu do Pitinga, foi chamado pelo IME – Instituto Militar de Engenharia, para onde levou alguns dos seus melhores nomes, como os geólogos João Hilário Javaroni e Aluísio Castanho Maciel, e o médico especialista em medicina nuclear, Dr. Alexandre Rodrigues de Oliveira, que num instante se tornaram “meus amigos de infância”, tamanha a afinidade entre nós. 

O Dr. Rex Nazaré Alves sugeriu ao Dr. Otávio Lacombe, em 1990, a formação de um grupo-tarefa para implantação de um programa de proteção radiológica, com minha participação como “assessor de projetos especiais” da empresa, sugestão aceita sem pestanejar. 

Aspectos técnicos do programa de radioproteção no Pitinga

A mineralização primária do Pitinga abrange, além da cassiterita e da zirconita, uma família de pirocloros e columbita–tantalita contendo teores significativos de urânio e tório. Era essa associação que me preocupava desde as primeiras análises químicas do Alto Igarapé Madeira: além dos desafios metalúrgicos, havia a necessidade de tratar o minério como um sistema potencialmente gerador de radiação gama e de radônio.

O programa de radioproteção que estruturamos com o grupo do Dr. Rex, inicialmente na CNEN e depois no IME, teve três pilares principais:

  • Monitoramento ambiental e ocupacional, com levantamentos cintilométricos de superfície, perfis radiométricos em residências e nas concentradoras do minério, e medições sistemáticas em pilhas de minério, barragens de rejeito e áreas de estocagem de concentrados.
  • Controle da exposição dos trabalhadores, por meio de dosimetria individual, definição de áreas controladas e supervisionadas, procedimentos de acesso e permanência, além de treinamento específico para as equipes. 
  • Controle de produtos e rejeitos, rotinas de amostragem representativa e, quando necessário, segregação de lotes com maior atividade, como os concentrados de minerais de nióbio e tântalo.

Não foram muitos anos, cerca de cinco anos, mas sem dúvida nenhuma, alguns dos anos mais interessantes da minha vida profissional, quando tive a oportunidade de estudar o que tanto me preocupava, do ponto de vista metalúrgico, na província mineral complexa do Pitinga. Não só aprendi algo novo, como adquiri amigos cuja inteligência admirava. O Javaroni já não está entre nós, mas continuo em contato com o Castanho e com o Dr. Alexandre até hoje. 

O Laboratório de Radioproteção

Dentre outros feitos, implantamos no Pitinga um Laboratório de Radioproteção muito bem montado, com os melhores equipamentos então disponíveis. 

O Laboratório de Radioproteção foi concebido para dar suporte a esses três pilares, citados acima. Contava com cintilômetros portáteis e de bancada, espectrometria gama, sistemas de preparo de amostras sólidas e líquidas, e infraestrutura para acompanhar em tempo quase real a situação radiológica da mina. Em retrospecto, ele foi uma peça-chave para transformar uma “anomalia” cintilométrica em um sistema de gestão de risco radiológico compatível com as normas da CNEN vigentes na época.

Para comandar esse laboratório, no início dos anos 90 contratei o Heitor Evangelista, físico nuclear recém formado. O Heitor me surpreendeu pela inteligência, eficiência e pela qualidade do som que tirava no trompete. De volta ao Rio, o Heitor se integrou na UERJ e se tornou um especialista na Antártida. Também acompanho os feitos científicos do Heitor até hoje. Estou acompanhando a atual temporada dele nesse deserto branco: o CBPF e a UERJ desenvolveram um detector portátil de múons, “partículas produzidas na alta troposfera por raios cósmicos, com meia vida de 2 microssegundos, mas deslocando-se a 98% da velocidade da luz, são capazes de atingir o solo” (ref. Heitor Evangelista, 26/12/2025). 

Homenagens póstumas

Presto homenagem particular para as três importantes personalidades in memorian:

Dr. Otávio Lacombe – o homem de personalidade marcante, pioneiro na lavra de cassiterita no Distrito Estanífero de Rondônia. Implantou o Pitinga com recursos próprios gerados pela operação preliminar e experimental para exploração dos recursos minerais a região, num esforço que ele definia como “fritar o porco na própria gordura”. Fui seu assistente direto na Assessoria de Projetos Especiais. (†21/06/1992).

Dr. Rex Nazaré Alves – físico nuclear, ex-presidente da CNEN, dedicou sua vida ao desenvolvimento do programa nuclear brasileiro. Especialista em radioproteção, inteligente e ser humano ímpar, tive o privilégio de trabalhar com ele na implantação do programa de radioproteção na Mineração Taboca – Mina do Pitinga e Mamoré Metalurgia. Este texto foi escrito poucos dias antes do seu falecimento (†06/janeiro/2026).

Geólogo João Hilário Javaroni – geólogo brilhante, fez carreira na Nuclebrás, onde foi o chefe da Pesquisa Geológica, foi levado pelo Dr. Rex Nazaré Alves para o IME,  integando a equipe de profissionais de alto nível da área nuclear que implantou o programa de radioproteção na Mineração Taboca. Tornou-se um amigo próximo do autor deste texto. (†14/03/2008).