Licença da CNEN garante operação da mina subterrânea

Produção nos próximos anos terá que dobrar para conseguir suprir as necessidades do País

No momento, a única explotação que ocorre em Caetité (BA) na Unidade de Concentrado de Urânio (URA) das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), está na porção LR 13 (mina Cachoeira), contudo, com a liberação recebida em julho da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEM) para as atividades na mina subterrânea, no ano que vem esse cenário vai mudar.

A lavra subterrânea, que iniciará as atividades em 2014, tem reserva lavrável de 1.500.773 t e espera-se extração anual média de 200.000 t de minério com teor de 2.910 ppm, em uma operação de oito anos. A rampa de acesso está sendo desenvolvida pela empreiteira MFW Engenharia e Mineração, contratada em 2007.

Segundo Ruy Capitulino de Alencar, coordenador de Lavra em Caetité, os trabalhos de desenvolvimento em subsolo foram iniciados no final de outubro de 2008 com o início da construção da rampa em direção aos corpos mineralizados 1 e 3. De acordo com o projeto básico da mina, ela dará acesso a todos os serviços, trânsito de empregados e produção, e seguirá de forma contínua até o último subnível da operação. O túnel terá seção de 5 m de largura por 5 m de altura central, área de 22,65 m², com greide -15 %, -10 % nas curvas, e raio de curvatura mínima de 25 m e extensão total de 1.775 m. O acesso aos corpos mineralizados ocorrerá por meio de uma série de travessas distintas em diferentes cotas com seção de 4 m de largura e 4,5 m de altura e, comprimento variável em função da sua localização e greide de 1,5 % em direção da rampa.

“A mina será composta por dois painéis e terá um total de nove subníveis, nomeados relativamente às coordenadas de cotas em elevação ao nível do mar, assim descritos: 1° Painel: SN 725,5; SN 712; SN 693; SN 674 e 2° Painel: SN 664,5; SN 650; SN 631; SN 612 e SN 593”, explica Capitulino. Os subníveis serão abertos seguindo a direção dos corpos mineralizados, equidistantes em 19 m verticais, exceto nos subníveis 725,5-712, que é de 13,5 m, e no 664,5-650, que é 14,5 m. A seção do subnível será de 4 m por 4,5 m, no contato com a lapa do minério, seguindo a sua geometria e com greide sempre positivo de 1,5 % a fim de direcionar as águas para a rampa onde se localizarão as caixas de água de esgotamento.

O coordenador de lavra conta também que, “em relação às chaminés de ventilação, será aberta uma de adução, com comprimento de 100 m, seção circular de diâmetro de 3 m, mais ao centro dos corpos 1 e 3, cujo objetivo é possibilitar a circulação de ar para o interior da mina permitindo a operacionalização e também servirá como saída de emergência”. Ele continua e afirma que, “além disso, serão abertas duas chaminés de exaustão nas extremidades dos corpos 1 e 3, sendo o poço do corpo 1 de comprimento de 160 m e o poço do corpo 3 de 139 m, cada um com seção circular de diâmetro de 3,0 m, executados com raise borer até a cota 725,5, cujo objetivo é retirar o ar do interior da mina para a superfície”, conclui.

Para a continuidade de circulação de ar dentro da mina, a partir do subnível 725,5 até o subnível 593, serão executadas chaminés de adução e exaustão entre os subníveis com seção de aproximadamente 7,5 m².

O método de lavra em subsolo a ser utilizado é o desmonte em recuo de subníveis concomitante ao enchimento dos realces com estéril (rockfill), sendo este uma variável do método conhecido como subníveis (sublevel). O enchimento dos realces se faz necessário para aumentar a estabilidade geral do maciço rochoso e permitir a lavra dos subníveis superiores.

A reserva lavrável da mina para os corpos 1 e 3 é de 1.272.076 t de minério, com teor médio de 2.968 ppm e a produção média prevista anual é de 200.000 t. O dimensionamento de pessoal previsto para a mina é de 178 empregados, divididos em três turnos de trabalho.

A operação da mina será terceirizada, todavia os planejamentos de curto, médio e de longo prazo, assim como os controles operacionais e acompanhamentos necessários nas áreas de segurança, saúde, radioproteção e meio ambiente, serão de responsabilidade da equipe técnica da INB.

Operação atual a céu aberto

Em relação à jazida Cachoeira, os corpos mergulham para o nordeste, tendo sua composição mineralógica dada por 65 % a 70 % de albita; 10 % a 20 % de piroxênio; 2 % a 5 % de granada, 2 % 5 % de epidoto; 1 % a 3 % de magnetita e 1 % a 2 % de carbonatos. O teor do minério é de 3.055 ppm, sendo importante salientar que a série do urânio encontra-se em equilíbrio radiológico, estando, portanto, todos os radionuclídeos com a mesma concentração radioativa. Dentro das características químicas do minério ainda há a presença de Ti, Mg, V, Ba e Nb entre outros elementos subordinados.

O planejamento de lavra nessa área, como explicou Vicente Vando Rezende, o engenheiro de Minas da INB, contou com sondagens feitas com furos de 40 m em 40 m e para o estudo geoestatístico foi utilizado o software GEMCOM, próprio para projetos de lavras.

Com os dados conseguidos na exploração da área, foi definido que o modelo de blocos a ser adotado teria dimensões de 5x5x5 m, utilizando o método de bancadas com proporções de 5 m para minério e 10 m para estéril com largura das bermas de 4 a 5 m. Os desmontes, devido à existência de água no fundo das aberturas, precisam ser feitos tanto com o explosivo encartuchado, quanto com o granulado, em furos em malha tipo “pé de galinha” com as proporções de 1,5 m x 3 m para minério e 1,5 m x 3,5 m para estéril, com diâmetro de 3”.

No planejamento da operação, esclarece Rezende, foram realizados estudo
s econômicos e chegou-se à conclusão que deveriam trabalhar a mina a céu aberto, começando na cota 900 e indo até a 770. Juntamente a isso, foi feito o planejamento da extração subterrânea com o emboque da rampa na cota 830, a qual já tem 483 m dos 1100 m necessários construídos.

A lavra na mina Cachoeira, atualmente operada pela MPC Transporte e Terraplenagem, conta com três escavadeiras hidráulicas CAT 320-C, cinco perfuratrizes pneumáticas PWH 5000i, oito caminhões basculantes Scania de 12 m³, uma pá carregadeira sob pneus CAT de 3 m³, dois tratores de esteiras de 170 HP da New Holland, uma moto niveladora 12 H CAT, um compactador vibratório, dois caminhões pipa Ford 8000 I com aspersor e um trator agrícola de pneus Valem 88.

São ao todo sete coordenações ligadas à área de produção, e a lavra trabalha em dois turnos de oito horas. Quanto ao beneficiamento e atividade na planta, são quatro equipes se revezando em jornadas de oito horas. Apesar da legislação prever turnos de no máximo seis horas, foi possível fazer esse tipo de rotina respeitando o tempo de repouso necessário graças a um acordo entre a INB e o sindicato, explica o gerente de Produção, Hilton Mantovani. “Esse pacto tem vigência até agosto e prevê o pagamento de duas horas extras para os funcionários diariamente, o que significa 40 % de aumento mensal para os trabalhadores.

Caso o 5º turno seja implantado, o que se encontra em estudo no momento, serão contratados 18 operadores, dois técnicos de enfermagem, dois técnicos de rádio proteção e mais um técnico de segurança do trabalho, um mecânico e um eletricista de turno, somente para a usina e áreas de apoio. Na planta trabalham cerca de 42 pessoas por turno, na lavra são mais 84 funcionários e, somados à MPC, a INB emprega 294 empregados próprios, totalizando 554 trabalhadores

Responsável pelos minérios que geram o combustível para abastecer Angra 1 e Angra 2, em 2012 foram lavradas 167.323 t de rochas na mina Cachoeira, em 2013 a expectativa é de mais 111.080 t, sendo que no último ano de lavra, em 2014, orum of mineestipulado é de 155.496 t. Em 2013, a produção esperada é de 260,32 t de U3O8, para o ano seguinte se estima que sejam produzidos381,05 t de U3O8, volume semelhante ao praticado em 2012, quando 382,77 t de U3O8foram gerados.

Rebaixamento da cava

Inicialmente era prevista operação a céu aberto até 2011, mas devido aos contratempos para iniciar a lavra subterrânea, a mineradora resolveu rebaixar os corpos mineralizados 1 e 3, aprofundando a mina, além da abertura do corpo 2. Essas medidas são paliativas e estão se esgotando, sendo que para o ano que vem já não trariam mais resultados.

Caso haja autorização dos órgãos licenciadores, a cava será aprofundada em mais 20 m chegando à cota 750, camada que seria utilizada como a laje da mina subterrânea, que passou à cota 730. Esse rebaixamento será feito com suporte técnico de duas consultorias e a inclinação do talude, que atualmente está em 68°, passará a ser de 90°, o que garantirá a lavra no ano que vem.

Tendo em vista o fato de as bancadas serem mais íngremes, para aumentar a segurança da operação, a mineradora alugou um radar para monitoramento 24 horas dos taludes e caso haja qualquer deslocamento um alerta é dado paralisando os trabalhos na cava. A empresa responsável pelo serviço é a GroundProbe, que faz uso do equipamentoSlope Stability Radar (SSR), que semanalmente faz relatórios sobre a situação geral da mina.

Esse radar, que além do empregado pela INB, só é utilizado no Brasil pela Vale em suas operações no Pará, foi desenvolvido para controlar remotamente o movimento de encostas em minas a céu aberto, permite aumento na produção em áreas de alto risco e as ferramentas avançadas de análise identificam perigos em longo prazo. O equipamento também fotografa digitalmente a área para identificação e interpretação dos movimentos de inclinação e é operacional em todos os terrenos de mineração, em ambientes inóspitos, incluindo altitudes de 5000 m acima do nível do mar e em níveis extremos de clima com temperaturas entre -40°C a +55°C.

Produção, disposição das pilhas e estéril

A INB só tem licença para produzir anualmente a quantidade máxima de 400 t de U3O8. No entanto, conta com intenso investimento em exploração geológica, chegando à quantia de R$ 1.860.996 dispendida em 2012 e o previsto para 2013 e 2014, respectivamente, é de R$ 1.900.000 e R$ 16.000.000.

No momento, o volume movimentado chega a 30.000 m³/mês, mas com a duplicação da capacidade da planta que aumentará a produção de 400 t para 800 t de urânio, juntamente com a lavra subterrânea e a Jazida Engenho responsável pelo recurso total de 12.630.679 t, com teor médio de 1.324 ppm e operação prevista para 14,3 anos de atividade, a movimentação mensal chegará a 60.000 m³.

Em relação às pilhas de minério, por ano podem ser formadas até oito, sendo duas, simultâneas,com 25.000 t a 32.000 t cada. O minério, após a lixiviação, com cerca de 20 % de urânio, segue para um depósito consorciado próximo a cava para ser acondicionado, para que seja feito seu envelopamento em taludes com mistura de estéril, lixiviado e solo. Esse processo serve para isolar o material para que não haja nenhuma contaminação ambiental do terreno, podendo futuramente ser reutilizado, pois contém uma porcentagem razoável de urânio, caso essa retomada seja economicamente viável.

O estéril em blocos de rocha funciona como neutralizador das drenagens que percolam para o minério lixiviado, favorecendo o aspecto ambiental. Há também uma canaleta na base desse local para captar a água de chuva e levá-la para a usina, evitando contaminações.

Deixe uma resposta