Exposição transforma testemunhos de sondagem em reflexão sobre o tempo da Terra

Exposição transforma testemunhos de sondagem em reflexão sobre o tempo da Terra

Usadas tradicionalmente em investigações geotécnicas, as amostras cilíndricas de rocha extraídas do subsolo deixam o campo técnico e passam a integrar a exposição As Formas Interiores, que marca a primeira mostra individual da artista peruana Elena Damiani no Brasil. Em cartaz na Galeria Almeida & Dale, em São Paulo, a exposição, que vai até este sábado, dia 10, traz esses materiais do campo técnico para o artístico, tratando-os como registros do tempo profundo da Terra. 

A artista organiza testemunhos de sondagem — amostras retiradas em perfurações verticais do solo — em uma estrutura de cerca de 200 quilos. No contexto da obra, esses fragmentos deixam de operar como dados de cálculo e passam a funcionar como arquivos materiais de processos geológicos acumulados ao longo de milhões de anos sob a superfície terrestre.

Do procedimento técnico à linguagem artística

Na geologia e na mineração, os testemunhos de sondagem são ferramentas fundamentais. Extraídos em perfurações profundas, eles permitem identificar camadas de solo e rocha, compreender processos de sedimentação, avaliar a estabilidade do terreno e analisar o potencial mineral de uma área. Trata-se de um procedimento técnico amplamente utilizado por geólogos e engenheiros civis antes da implantação de obras de infraestrutura ou projetos de exploração mineral.

Na série Testigos — “testemunhos”, em português — Elena Damiani se apropria diretamente desse método. As colunas de rocha são reorganizadas lado a lado, respeitando a sequência original de deposição das camadas. Embora tridimensionais, as esculturas assumem, à distância, um aspecto quase bidimensional, remetendo a imagens aéreas de desertos e terrenos.

O tempo inscrito na matéria

A exposição reúne diferentes séries recentes que funcionam como um panorama da prática da artista, sempre orientada pela investigação da temporalidade inscrita nos materiais geológicos. “Meu trabalho se refere muito à geologia, ao território e à memória da Terra”, afirmou Damiani, em entrevista ao Estado de São Paulo. O interesse, segundo ela, está em compreender como a matéria registra tanto processos lentos de sedimentação quanto eventos abruptos de ruptura.

Mesmo utilizando materiais historicamente associados à escultura, como mármore e travertino, Damiani rompe com a leitura clássica. A pedra é apresentada não como referência à tradição artística, mas como registro natural de processos geológicos e temporalidades que antecedem a presença humana.

Entre estrutura e instabilidade

A exposição é marcada pelo contraste entre formas geométricas e orgânicas. Com formação parcial em arquitetura, Elena Damiani afirma se interessar tanto por sistemas estruturados quanto por dinâmicas naturais instáveis. “A natureza se organiza por si mesma, mas essa organização é contingente e pode ser interrompida por eventos caóticos, como terremotos ou aluviões”, afirmou a artista na entrevista.

Essa lógica de equilíbrio instável entre construção e desgaste, estrutura e decomposição aproxima o trabalho artístico de debates centrais da geologia contemporânea, em que eventos extremos e processos de longa duração coexistem na modelagem do território.

Brasil como campo de pesquisa futura

A experiência no Brasil, segundo Damiani, pode influenciar trabalhos futuros. Diante da diversidade de paisagens e formações geológicas do país, a artista afirma ter interesse em aprofundar suas pesquisas a partir do território brasileiro. “É um país imenso, com topografias e minerais muito diversos. Gostaria bastante de me dedicar a isso em um próximo projeto.”