Vale utiliza pilhas blendadas para processar minério com talco na Mina do Sossego

Vale utiliza pilhas blendadas para processar minério com talco na Mina do Sossego

Projeto desenvolvido na unidade de cobre, em Canaã dos Carajás (PA), avalia métodos de homogeneização para reduzir a variabilidade da alimentação e viabilizar o beneficiamento de minério TTX sem reagentes adicionais.

A Vale desenvolveu um estudo para viabilizar o processamento de minério com talco na Mina do Sossego, localizada em Canaã dos Carajás, no Pará. O projeto avaliou o uso de pilhas blendadas para reduzir a variabilidade dos teores de talco e cobre na alimentação da usina, permitindo o beneficiamento do minério talco-tremolita-xisto (TTX) sem a necessidade de reagentes adicionais.

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A equipe de Geociências e Processos da Usina analisou três métodos de construção de pilhas de homogeneização. Entre eles, o método de ponta de aterro aleatória apresentou resultados favoráveis em produtividade e estabilidade operacional.

A iniciativa permitiu que o minério TTX representasse 8,2% do ROM (run of mine) total processado em 2024, mantendo o concentrado de cobre dentro das especificações comerciais.

Além da blendagem, o projeto contemplou controles de proporção e alimentação do minério, com ajustes nos parâmetros de processamento que contribuíram para reduzir as dosagens de cal e xantato.

Presença de talco representa desafio para a flotação de cobre

A Mina do Sossego é um depósito de cobre do tipo IOCG (Iron Oxide Copper Gold), composto pelas cavas Sossego, Pista, Mata e Sequeirinho. Esta última concentra aproximadamente 85% das reservas minerais.

Em 2017, após 13 anos de operação, foram identificadas as primeiras ocorrências de rochas com talco no corpo de minério de Sequeirinho, caracterizadas pela litologia talco-tremolita-xisto (TTX).

A presença de talco e outros minerais associados pode comprometer a eficiência do processo de flotação de cobre.

Entre os principais efeitos observados estão:

  • Aumento do consumo de reagentes;
  • Elevação da viscosidade da polpa;
  • Formação de espuma seca, de difícil quebra e drenagem;
  • Ocorrência do fenômeno conhecido como slime coating, relacionado ao recobrimento de partículas minerais;
  • Redução da seletividade e alterações na recuperação metalúrgica.

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O talco apresenta hidrofobicidade natural e, por isso, pode acompanhar os minerais de interesse durante a flotação, contaminando o concentrado final.

Sua presença também modifica o comportamento da espuma, dificultando a drenagem e o escoamento do material ao longo do processamento.

Estoques de minério TTX somavam 5,5 milhões de toneladas

Devido à baixa seletividade na frente de lavra, parte do minério TTX não pôde ser separada do minério de cobre.

Como a planta apresentava restrições para seu processamento, o material foi estocado em duas pilhas, que acumulavam aproximadamente 5,5 milhões de toneladas de minério, com teor informado de 0,7% de cobre.

A partir de 2018, a Vale iniciou estudos para identificar uma rota de beneficiamento tecnicamente viável.

As alternativas avaliadas incluíram pré-flotação de talco, deslamagem em 20 µm e flotação com utilização de depressor para talco.

Entre as rotas estudadas, o uso de depressor apresentou resultados favoráveis à recuperação do cobre.

Os testes indicaram:

  • Recuperação metalúrgica de cobre próxima de 92%;
  • Teor de concentrado de 27,1%;
  • Teor de alimentação de 0,7% de Cu;
  • Redução do teor de talco de 6% para 0,8%.

Entretanto, a avaliação econômica apontou investimento de capital (Capex) estimado em US$ 10,7 milhões, além de aumento de US$ 1,68 por tonelada alimentada nos custos operacionais (Opex).

A implantação dessa alternativa também exigiria espaço físico adicional para instalação do sistema.

Vale avalia blendagem como alternativa ao uso de reagentes adicionais

Em dezembro de 2023, as equipes de Geociências e Processos da Usina iniciaram discussões sobre a alimentação controlada do minério TTX.

O objetivo era desenvolver uma estratégia que permitisse incorporar o material ao processamento sem comprometer o plano anual de produção e sem adicionar novos reagentes à rota de beneficiamento.

A proposta envolveu a construção de pilhas blendadas, combinando o minério TTX com minério sulfetado de baixo teor (SBT), de modo a reduzir a variabilidade da alimentação.

Para fundamentar os testes, foram realizadas campanhas de amostragem e caracterização mineralógica.

As análises utilizaram QEMSCAN Quanta 650, ICP-OES (Inductively Coupled Plasma – Optical Emission Spectrometry) e o software iDiscover, empregado na reconciliação dos resultados mineralógicos com as análises químicas.

As amostras apresentaram a seguinte composição mineralógica:

MineralParticipação
Talco20,3%
Escapolita16,3%
Biotita13,7%
Calcopirita6,0%

A caracterização também identificou teores médios de cobre de 2,22% na Pilha 1 e 0,48% na Pilha 2.

Os reagentes empregados nos testes foram os mesmos utilizados na alimentação regular da usina: cal como modificador de pH, xantato e ditiofosfato como coletores e propilenoglicol como espumante.

Três métodos de construção de pilhas foram testados

Para reduzir a variabilidade dos teores de cobre e talco, a Vale avaliou três métodos de formação de pilhas de homogeneização.

1. Pilha de homogeneização em camadas horizontais

A primeira alternativa consistiu na construção de uma pilha em três camadas, formando uma estrutura semelhante a um sanduíche:

  • Camada inferior de minério sulfetado de baixo teor (SBT);
  • Camada intermediária de minério TTX;
  • Camada superior de SBT.

O método permitiu ampliar a participação média do TTX na alimentação de 9,1% para 17,6%, em comparação com a alimentação direta das pilhas.

A recuperação metalúrgica alcançou 89,4%, enquanto o teor do concentrado de cobre permaneceu acima de 26%, atendendo às especificações comerciais.

Apesar dos resultados metalúrgicos, a construção por contrapilhamento de camadas horizontais apresentou limitações de produtividade na área disponível.

2. Pilha em ponta de aterro com camadas intercaladas

A segunda alternativa utilizou a construção em ponta de aterro, com camadas homogêneas e intercaladas de minério.

O basculamento em face livre proporcionou maior velocidade de recebimento do material, melhorando a produtividade durante a formação das pilhas.

Entretanto, o método exigia que a retomada do minério ocorresse em direção perpendicular ao eixo longitudinal das camadas, condição necessária para favorecer a homogeneização.

Segundo relatos dos técnicos de processo, as pilhas construídas dessa forma apresentaram maior variabilidade na etapa de flotação.

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A recuperação metalúrgica média registrada foi de 87,8%.

3. Pilha em ponta de aterro aleatória

O terceiro método consistiu na deposição aleatória dos minérios TTX e SBT em ponta de aterro, sem uma sequência fixa de camadas.

A proposta buscou promover a mistura dos materiais e reduzir as oscilações de composição durante a retomada e alimentação da usina.

Para a formação das pilhas, foram estabelecidos controles operacionais específicos:

  • Utilização de dois equipamentos com capacidades produtivas semelhantes para alimentar a pilha;
  • Monitoramento horário da proporção entre os minérios;
  • Manutenção da proporção planejada durante a construção, como 40% de TTX e 60% de SBT;
  • Disponibilidade contínua de trator para recebimento e distribuição do material;
  • Deposição aleatória, evitando a segregação dos tipos de minério.

O método apresentou maior estabilidade na alimentação da planta e recuperação metalúrgica média de 88,3%, superior aos 87,8% observados na alternativa de ponta de aterro em camadas intercaladas.

Comparação dos resultados de recuperação metalúrgica

Método de blendagemRecuperação metalúrgica média
Camadas horizontais (sanduíche)89,4%
Ponta de aterro com camadas intercaladas87,8%
Ponta de aterro aleatória88,3%

Embora o método em camadas horizontais tenha registrado a maior recuperação média entre os resultados apresentados, a construção em ponta de aterro aleatória ofereceu vantagens relacionadas à homogeneização, à produtividade de formação e à menor variabilidade observada durante a alimentação da usina.

A comparação operacional considerou teores de alimentação entre 0,55% e 0,7% de cobre, concentrado acima de 26% e participação de TTX entre 10% e 15%.

Controle horário da alimentação reduz variabilidade do minério

Além da construção de pilhas blendadas, a Vale implementou um controle horário da proporção de TTX alimentada na usina.

A medida buscou reduzir as oscilações dos teores de cobre e talco e proporcionar maior estabilidade ao processo de flotação.

Nos meses de abril e maio, durante a implementação do controle, o desvio padrão da proporção alimentada ainda permanecia acima do limite superior estipulado. Nesse período, a restrição de 15% de TTX na alimentação diária ainda não havia sido estabelecida.

Com o avanço dos controles, a maior previsibilidade dos teores das pilhas facilitou o atendimento às metas diárias de alimentação.

Outro ajuste importante foi a utilização de minério de baixo teor de cobre na composição das pilhas blendadas.

A partir da segunda pilha, passaram a ser empregados materiais com teor inferior a 0,5% de Cu na mistura com o TTX.

Essa estratégia contribuiu para reduzir as oscilações provocadas pela combinação de materiais com teores muito diferentes, favorecendo a estabilidade da flotação.

Projeto permite aproveitar minério TTX e manter especificações do concentrado

Os resultados do estudo demonstraram a viabilidade operacional do processamento controlado de minério TTX por meio de pilhas blendadas, sem a introdução de reagentes adicionais.

Em 2024, o material representou 8,2% do ROM total, contribuindo para o aproveitamento de minério anteriormente estocado e para a manutenção do plano de produção da Mina do Sossego.

A experiência também demonstrou a importância da integração entre planejamento de lavra, formação de pilhas, controle de alimentação e parâmetros de beneficiamento.

O método de ponta de aterro aleatória, associado ao monitoramento horário da mistura, apresentou resultados favoráveis à estabilidade do processo e ao atendimento das especificações do concentrado de cobre.

O estudo reforça o papel da homogeneização de minérios como ferramenta de controle da variabilidade e de aproveitamento de materiais com características mineralógicas desafiadoras.