Programa de descaracterização da Valevai lidar com estruturas críticas
O programa de descaracterização de barragens da Vale, iniciado após o rompimento de uma estrutura da empresa em Brumadinho (MG) em 2019, entra na fase mais crítica.
No total, a mineradora já descaracterizou 19 estruturas a montante (63%), do total de 30 do programa – sendo 3 no Pará e 27 em Minas Gerais. Já foram investidos R$ 13 bilhões dos R$ 28,3 bilhões previstos de desembolso do programa.
Rodrigo Campos, Diretor de Implantação de Projetos da Vale, apresentou detalhes do programa de descaracterização da Vale, que vai até 2035, durante o Workshop Opex 2026, realizado pela revista Minérios & Minerales em junho, em Belo Horizonte (MG).
“O programa agora chega na fase mais complexa. As barragens que nós temos que descaracterizar são as mais críticas. Essas descaracterizações demandam muitos estudos. Por isso é que elas estão entrando na fase de detalhamento do projeto executivo, e passando pelas aprovações de cada fase de engenharia”, explicou Rodrigo em entrevista à revista Minérios durante o Workshop.
O executivo detalhou que todas as barragens agora a serem descaracterizadas são de grande porte e com nível 2 de emergência (situação que impõe estado de alerta à barragem), incluindo as estruturas de Mina de Fábrica, em Congonhas (MG), e a Mina Congo Soco, em Barão de Cocais (MG).
“Tratam-se de estruturas que a gente não pode ter trabalhos com pessoas. Os trabalhos são feitos com equipamentos controlados remotamente. Então, a velocidade é menor. São estruturas que a gente tem que ter cuidado de execução, e a velocidade importa”, ressalta.
Por conta das dificuldades de acesso às estruturas, Rodrigo conta que o trabalho de investigação sobre elas é essencial. “E para investigar a gente precisa de tecnologia para acessar as estruturas, e analisar o comportamento, fazer o estudo de engenharia e dar uma solução. E cada estrutura tem um tipo de solução”, destaca.
O diretor relata que durante todo o programa de descaracterização das barragens o ineditismo esteve sempre presente, já que a engenharia nunca tinha lidado com essa questão de forma tão ampla e aprofundada. Além disso, a busca de mão de obra especializada para os trabalhos foi outro gargalo encontrado.
No processo de descaracterização, por exemplo, estão sendo utilizados equipamentos remotos de sondagem geotécnica para realizar ensaios, investigações e instrumentação. Um robô, chamado Pindorama, desenvolvido pela Vale, faz coleta de amostras remotamente.
As soluções de equipamentos remotos, segundo Rodrigo Campos, até existiam no mercado, mas não no volume exigido para as estruturas a serem descaracterizadas.
Para acessar as estruturas de nível 2 de emergência, foi montado até um engenhoso sistema, composto com 4 torres e 20 km de cabos, em área de 180 mil m², para que os trabalhadores pudessem fazer inspeção por via aérea.
No programa, há estruturas que estão sofrendo remoção total do rejeito, outras estão recebendo reforço, e há barragens onde acontecem as duas atividades ao mesmo tempo. O executivo da Vale lembra também que foi preciso executar estruturas de contenção a jusante, caso ocorresse rompimento a montante de determinadas estruturas.
“O programa está baseado em alguns direcionadores. A legislação mudou e os compromissos que a Vale tem estão direcionados para a legislação nova. A legislação nova demanda engenharia nova para esse tipo de estrutura”, ressalta.
Rodrigo Campos acrescenta que há ainda o pilar da governança dentro da empresa, que conversa com a legislação nova, que é a auditoria dos projetos. Não é só tecnologia ou estar de acordo com a legislação, mas tem o pilar de mudança de cultura dentro da empresa para esse tipo de atividade, pontua o diretor
