MINERAIS ESTRATÉGICOS
Por Rotênio Castelo Chaves Filho
A mineração mundial vive uma transição: de um modelo centrado em grandes volumes de minério de ferro, carvão e bauxita, para outro em que ganham destaque os chamados minerais estratégicos – lítio, nióbio, terras raras, níquel, grafite, cobalto, cobre e afins. Esses insumos são hoje a base material da transição energética, da eletrificação da mobilidade, da digitalização e de diversas cadeias de alta tecnologia, com projeções de crescimento expressivo de demanda nas próximas décadas.
O Brasil ocupa posição privilegiada nesse cenário, combinando liderança absoluta em nióbio, forte potencial em lítio, grafite e terras raras, além de recursos relevantes em cobre e níquel. O principal desafio, porém, não é geológico: está na capacidade de avançar na cadeia de valor, dominando rotas de beneficiamento, hidrometalurgia, separação por solventes e produção de materiais avançados para baterias, ligas especiais e ímãs permanentes de alta performance.
Este artigo discute o papel atual do país na produção desses minerais, a evolução tecnológica dos processos de beneficiamento, os projetos mais estratégicos em implantação (como lítio no “Vale do Lítio” e terras raras em Serra Verde) e as condições necessárias para que o Brasil deixe de ser apenas exportador de concentrados e se consolide como protagonista na transformação e na inovação em minerais críticos.
A mineração passou, em poucas décadas, de atividade focada em grandes volumes de minério de ferro, cobre, carvão e bauxita, por exemplo, para um setor cada vez mais orientado por minerais estratégicos – lítio, nióbio, terras raras, níquel, grafite, cobalto, cobre e outros. Esses materiais estão no centro da transição energética, da eletrificação dos veículos de transporte individuais e coletivos, da digitalização e das cadeias de defesa e alta tecnologia.
Hoje, o bloco dos chamados critical minerals já movimenta um mercado da ordem de US$ 300 a 350 bilhões (ref. IEA – Global Critical Minerals Outlook, 2023-2024), com crescimento puxado principalmente por aplicações em energia limpa. Projeções da Agência Internacional de Energia (IEA) indicam que, até 2040, a demanda global por lítio deve crescer cerca de cinco vezes, enquanto níquel e grafite devem ao menos dobrar; cobalto e terras raras tendem a aumentar em 50–60%, e o cobre, que já parte de uma base muito alta, deve crescer em torno de 30%.
EVOLUÇÃO DO MINÉRIO HISTÓRICO AO MINERAL ESTRATÉGICO
Historicamente, a mineração atendeu sobretudo à siderurgia, geração, transmissão de energia e construção civil. A dinâmica atual é diferente: a descarbonização das economias, a expansão da demanda por baterias recarregáveis e a necessidade de materiais de alta performance criaram uma agenda em que o valor está menos na tonelagem e mais na funcionalidade dos elementos.
COBRE
Tornou-se o “metal dos elétrons”: é indispensável em redes elétricas, motores de veículos elétricos, infraestrutura de recarga, painéis solares e eólicas. A IEA estima aumento de demanda em torno de 30% até 2040 apenas considerando cenários atuais de tendências.
NÍQUEL, COBALTO E GRAFITE
Esses metais são pilares das baterias de íons de lítio. A demanda de baterias como um todo deve crescer mais de quatro vezes até 2030. Embora novas químicas, como LFP e sódio-íon, estejam ganhando espaço e reduzindo o peso relativo de níquel e cobalto, esses metais ainda são críticos em baterias de alta densidade energética.
LÍTIO
Continua no centro de quase todas as tecnologias comerciais de baterias. Estimativas recentes apontam que a demanda anual pode chegar a cerca de 3 milhões de toneladas (LCE) em 2030, mais que o triplo do consumo de 2022.
TERRAS RARAS
Em especial Nd, PR, Dy e Tb, são indispensáveis em ímãs permanentes de alto desempenho usados em motores de veículos elétricos e geração eólica, equipamentos eletrônicos – incluindo smartphones – e sistemas de defesa. A demanda por essas terras raras deve ser multiplicada por três até 2035.
NIÓBIO
Apesar de não ser um metal usual para baterias (a CBMM tem uma iniciativa nessa área), é um modificador de propriedades em aços de alta resistência e vem ganhando espaço em superligas, materiais para eletrônica de potência e até novas gerações de baterias de estado sólido. O Brasil responde por cerca de 80 a 90% da produção mundial e por mais de 90% das reservas conhecidas, o que confere ao país posição singular no mapa dos minerais estratégicos.
Esse conjunto de materiais cria um nexo direto entre mineração, química de materiais e política energética.
NIÓBIO EM BATERIAS: O QUE A CBMM ESTÁ FAZENDO
A CBMM é um caso a ser destacado. Nos últimos anos, a empresa passou a tratar o segmento de baterias como um dos eixos centrais da estratégia de agregação de valor ao nióbio. Em vez de atuar principalmente como fornecedora de ferronióbio, a empresa vem investindo no desenvolvimento de materiais de ânodo à base de nióbio para baterias de íons de lítio, com foco em aplicações de carga ultrarrápida, alta potência e longa vida útil.
Um dos movimentos mais importantes foi a implantação, em Araxá (MG), de uma planta dedicada à produção de materiais de ânodo contendo nióbio, em parceria com empresas de alta tecnologia. Esses novos materiais permitem reduzir significativamente o tempo de recarga (minutos em vez de horas), com maior estabilidade e maior segurança operacional, características importantes para frotas elétricas, veículos comerciais, aplicações industriais e sistemas de armazenamento estacionário.
Paralelamente, a CBMM participa de programas de desenvolvimento conjunto com grandes grupos internacionais do setor eletroquímico, buscando consolidar famílias de baterias de íons de lítio com ânodos de óxidos de nióbio. Protótipos de veículos elétricos equipados com essas baterias já foram testados em condições reais de operação, demonstrando o potencial tecnológico do nióbio como componente-chave nas baterias da próxima geração. Embora ainda em fase de consolidação comercial, esses projetos indicam uma rota concreta para que o Brasil deixe de ser apenas líder na produção de nióbio e passe a ter papel relevante também na engenharia de materiais e na indústria de sistemas de armazenamento de energia.
BRASIL: DE DETENTOR DE RESERVAS A PLAYER DE TECNOLOGIA?
O país ocupa posição privilegiada em vários desses minerais: grandes recursos de lítio em pegmatitos e rochas estratificadas no Sudeste e Nordeste; nióbio em Minas Gerais, Goiás, Amazonas e Rondônia; terras raras em carbonatitos, argilas iônicas e rejeitos históricos; níquel laterítico e sulfetado em várias províncias minerais; além de recursos expressivos de cobre e grafite.
O desafio não é apenas geológico. O verdadeiro “funil de valor” está nas etapas químicas e metalúrgicas:
domínio de rotas de lixiviação, purificação e extração por solventes para terras raras;
desenvolvimento de processos de refino e materiais de cátodo/anodo de lítio, níquel, cobalto e grafite;
integração com cadeias de ligas especiais e eletrônica de potência no caso do nióbio e cobre.
Sem essa etapa de transformação, o país permanecerá como exportador de concentrados ou produtos intermediários, enquanto grande parte da captura de valor e da propriedade intelectual fica no exterior.
TENDÊNCIAS TECNOLÓGICAS E NOVOS VETORES DE RISCO
A próxima década deve ser marcada por três movimentos simultâneos:
Aumento do consumo absoluto de minerais estratégicos, impulsionado por eletrificação da frota leve, expansão de redes e armazenamento estacionário. (IEA)
Rápida inovação em materiais:
o baterias com menor teor de cobalto ou livres de cobalto;
o maior participação de químicas lítio-Ferro-fosfato (LFP) e sódio-íon, afetando o mix de metais;
o pesquisa em ímãs com menor uso de terras raras pesadas, embora sem substituição completa em horizonte previsível.
Pressão ESG e geopolítica:
o exigência de rastreabilidade, redução da pegada de carbono e respeito a direitos ambientais e sociais;
o preocupação crescente com a concentração da produção e refino em poucos países, em especial no caso de terras raras, cobalto, lítio e grafite.
Para a indústria química e metalúrgica, isso se traduz em oportunidades de desenvolvimento de novos reagentes, solventes, materiais de separação, rotas hidrometalúrgicas mais limpas e tecnologias de reciclagem.
PERSPECTIVAS FUTURAS
A mineração do futuro será mais:
seletiva, apoiada em geometalurgia, sensoriamento em tempo real e controle de processos;
hidrometalurgia, com maior peso das etapas de lixiviação, separação, síntese de compostos e reciclagem;
circular, integrando minério, reaproveitamento de rejeitos e recuperação de metais de produtos em final do ciclo de vida;
geopolítica, em que cadeias de suprimento de minerais estratégicos serão tão sensíveis quanto rotas de petróleo no século XX.
Para países como o Brasil, a questão-chave não é apenas “quanto minério temos”, mas até onde conseguiremos avançar na cadeia de valor: de concentrados a óxidos de alta pureza, de óxidos a ligas e materiais funcionais, e destes a componentes industriais (ímãs, superligas, catalisadores, baterias).
Em síntese, a evolução da mineração em direção aos minerais estratégicos desloca o eixo do setor para muito perto do universo da química ou metalurgia fina e dos materiais avançados. Para a indústria mineral e química, isso abre um campo fértil de colaboração multidisciplinar, com geólogos, engenheiros de minas, metalurgistas e químicos, na construção de uma nova indústria minerometalúrgica, ao mesmo tempo mais sofisticada tecnologicamente e mais responsável ambientalmente.



