FOSFATO, VERDETE E OUTRAS ROCHAS PARA A AGRICULTURA BRASILEIRA
O Brasil possui base geológica relevante para ampliar a oferta doméstica de insumos minerais para a agricultura, com destaque para os minérios fosfatados de Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Ceará e Tocantins. Além da produção de concentrado para fertilizantes industriais, existe também no país a prática da aplicação direta de rocha fosfática natural, particularmente na forma de fosfatos naturais reativos, de reconhecida importância agronômica em determinadas condições de solo.
Ao lado do fosfato, outras rochas e minerais têm importância crescente no setor agrícola, como calcário, gesso, remineralizadores e o verdete, rocha glauconítica com potencial como fonte nacional de potássio, nutriente essencial das formulações NPK.
O desafio brasileiro, no entanto, não é apenas geológico. A questão central está em transformar depósitos e ocorrências minerais em insumos agrícolas efetivos, com lavra, beneficiamento, processamento, logística e competitividade econômica. A forte dependência brasileira de fertilizantes importados voltou ao centro das preocupações do setor agropecuário. Em um cenário internacional instável, com riscos logísticos e geopolíticos afetando o suprimento global, cresce a atenção sobre os recursos minerais domésticos capazes de sustentar parte maior da demanda agrícola nacional. O debate envolve, em primeiro lugar, os minérios fosfatados, base do fornecimento de fósforo para fertilizantes, mas também alcança outras rochas para uso agrícola, como o verdete, os fosfatos naturais reativos, o calcário agrícola, o gesso e os remineralizadores.
A questão é simples de formular, mas complexa de resolver: onde estão os depósitos estratégicos do Brasil e até que ponto eles podem reduzir a vulnerabilidade do país em fertilizantes?
Fósforo
O fósforo é um dos três macronutrientes essenciais das formulações NPK. No Brasil, sua principal fonte mineral é a apatita, concentrada sobretudo em jazidas associadas a complexos alcalino-carbonatíticos. Em grande parte dos casos, a rocha fosfática precisa ser britada, moída, beneficiada para produção do concentrado fosfático, que depois segue para acidulação e formulação industrial dos fertilizantes. O CETEM destaca que esse concentrado constitui a base mineral da indústria de fertilizantes fosfatados.
Os principais polos brasileiros de fosfato concentram-se em Minas Gerais — Tapira, Araxá,
Serra do Salitre/Patrocínio e Coromandel —, Goiás — Catalão/Ouvidor —, São Paulo —
Cajati/Jacupiranga —, além de projetos relevantes em Ceará, como Santa Quitéria/Itataia,
e em Tocantins, como Arraias. Esses polos aparecem de forma recorrente na
documentação técnica e institucional sobre fertilizantes e mineração no país.

Segundo o Sumário Mineral Brasileiro 2025, o Brasil produziu 7 milhões de toneladas de
fosfato em 2024, com crescimento expressivo sobre o ano anterior. Ainda assim, o país
continua longe da autossuficiência em fertilizantes, o que mostra que a simples existência
de jazidas não elimina a dependência externa.
A rocha fosfática também pode ir direto para o solo
Um ponto importante, nem sempre lembrado, é que a rocha fosfática não serve apenas
para a produção de fertilizantes industriais. No Brasil existe também a prática da aplicação
direta de rocha fosfática natural, especialmente na forma de fosfato natural reativo.
A eficiência dessa aplicação direta depende de fatores como a reatividade da rocha, a
granulometria, a acidez do solo, o tipo de cultura e o tempo de efeito residual. Em outras
palavras, nem toda rocha fosfática precisa necessariamente virar fertilizante acidulado. Em
determinadas condições, sobretudo em solos ácidos, a rocha natural pode ser aplicada
diretamente no campo, liberando fósforo de forma gradual.
Nesse contexto, Mato Grosso do Sul merece destaque. O estado é frequentemente citado
quando se fala em fosfato natural reativo para uso agrícola, incluindo referências ao
fosfato natural de Bonito, objeto de estudos agronômicos e ações de pesquisa e extensão.
Além dos polos tradicionais, alguns projetos são vistos como estratégicos para reforçar a produção nacional de fosfato. O mais lembrado é Santa Quitéria (CE), empreendimento de grande porte que envolve fosfato associado a urânio e aparece com frequência nas discussões sobre segurança de suprimento de fertilizantes. Também se destaca Arraias (TO), citado entre os projetos com potencial de reforçar a oferta doméstica.
Esses projetos mostram que o tema do fosfato no Brasil não está esgotado. Há base geológica, há projetos em diferentes estágios e há espaço para crescimento — desde que lavra, beneficiamento, licenciamento e competitividade econômica avancem de forma integrada.
Verdete: outra rocha que entra no debate agrícola
Se o fosfato domina a discussão sobre fósforo, o verdete amplia o universo das outras rochas para a agricultura. Trata-se de uma rocha glauconítica, ou siltito glauconítico, que ganha relevância por seu potencial como fonte nacional de potássio, nutriente essencial ao componente K das formulações NPK.
Nesse campo, o caso mais conhecido é o da Kalium Mineração, em Minas Gerais, que desenvolveu rota tecnológica própria para aproveitamento do verdete em escala pré-industrial e com perspectiva de ampliação. O verdete não substitui o fosfato e tampouco resolve sozinho o problema do potássio no Brasil, mas entra com força como agromineral estratégico, justamente por atacar um dos pontos mais sensíveis da dependência externa do país.

Em termos conceituais, o verdete deve ser entendido como outra rocha para uso agrícola,
ligada ao componente K do NPK, e como alternativa complementar dentro da estratégia de
ampliar a produção nacional de insumos.
Calcário, gesso e remineralizadores seguem importantes
Ao lado do fosfato e do verdete, o país dispõe de outros minerais e rochas com papel agrícola importante. O calcário agrícola continua indispensável para a correção da acidez dos solos tropicais. O gesso agrícola permanece importante como condicionador químico de subsuperfície e fonte de cálcio e enxofre. O basalto moído, assim como outros remineralizadores e pós de rocha, vem sendo estudado como fonte de nutrientes e como melhorador das condições químicas do solo, embora sua eficiência dependa fortemente da mineralogia, da granulometria, do tipo de solo e do tempo de reação.
Esses materiais não substituem integralmente os fertilizantes convencionais, mas podem desempenhar papel complementar relevante, sobretudo em cadeias regionais de insumos agrícolas.
O desafio não é só geológico
O Brasil possui base geológica para ampliar a oferta de fósforo e diversificar outras fontes minerais para a agricultura. Mas o desafio real vai além da descoberta de jazidas. É preciso transformar recurso mineral em produto agrícola efetivo, o que exige lavra economicamente viável, beneficiamento adequado, processamento industrial ou validação agronômica, logística competitiva e escala de produção.
No caso do fosfato, isso significa trabalhar com duas rotas complementares: concentrado para fertilizantes industriais e rocha fosfática natural para aplicação direta, quando agronomicamente indicada. No caso do verdete, significa comprovar desempenho agronômico, viabilidade econômica e capacidade de escala.
Em um cenário de instabilidade internacional, olhar para os depósitos brasileiros de fosfato e para outras rochas agrícolas deixou de ser apenas um exercício geológico. Passou a ser uma questão de estratégia agrícola e mineral.
Os depósitos de fosfato de Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Ceará e Tocantins continuam formando o núcleo duro da oferta nacional de fósforo. A aplicação direta da rocha fosfática, inclusive com exemplos em Mato Grosso do Sul, já integra de forma concreta a prática agrícola brasileira. E o verdete surge como exemplo emblemático de outra rocha para a agricultura, para aplicação direta ou associada ao componente potássico dos fertilizantes NPK.
Mais do que listar ocorrências, o desafio do país é integrar esses recursos a cadeias técnicas, industriais e logísticas capazes de transformá-los em insumos efetivos para a agricultura brasileira.




