A história do minério de Manganês da Serra do Navio
Por Professor Rotênio Chaves
Ao revisitar a história da exploração do manganês da Serra do Navio, no Amapá, conduzida pela ICOMI – Indústria e Comércio de Minérios S.A., é inevitável reconhecer que se trata de um dos empreendimentos minerais mais estruturantes já realizados no Brasil. Mais do que um projeto de mineração, foi uma experiência completa de engenharia, logística, urbanismo e gestão institucional, cujas lições permanecem atuais.
Escrevo este texto com o olhar de quem entende que a mineração deve ser analisada não apenas pelo volume produzido, mas pelo sistema que constrói, pelas instituições que fortalece e pelo legado que deixa.
A descoberta do manganês e o contexto institucional dos anos 1940
As jazidas de manganês da Serra do Navio foram descobertas em 1945, em um período marcado pelo esforço global de reconstrução do pós-Segunda Guerra Mundial. O episódio é conhecido: durante uma exposição das riquezas do então Território Federal do Amapá, uma amostra de rocha apresentada por um canoeiro despertou atenção técnica. As análises confirmaram tratar-se de minério de manganês de alto teor, fato posteriormente comprovado por campanhas geológicas sistemáticas.
Vale destacar que, já naquele momento, a concessão minerária envolveu disputa política e institucional, culminando em contrato aprovado pelo Congresso Nacional. Esse ponto é relevante: havia consciência, desde o início, de que se tratava de um ativo estratégico para o país.
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Engenharia societária: por que o modelo 51/49 funcionou
A implantação do projeto exigia capital, tecnologia e garantia de mercado. A solução encontrada — frequentemente citada como exemplar — foi a associação entre capital nacional majoritário (51%) e capital estrangeiro minoritário (49%), com a entrada da Bethlehem Steel.
Esse arranjo não foi trivial. Ele assegurou controle brasileiro, acesso a tecnologia e mercado consumidor, além de financiamento. É impossível não reconhecer o papel central do engenheiro Augusto Trajano de Azevedo Antunes, cuja visão estratégica foi decisiva para viabilizar o empreendimento.
Do ponto de vista de política mineral, esse modelo permanece como uma referência raramente replicada com o mesmo equilíbrio nas décadas seguintes.
Mina, ferrovia e porto: o conceito de sistema integrado
A ICOMI não implantou apenas uma mina. Construiu um sistema logístico completo, algo que hoje chamaríamos de corredor mineral:
- Mina a céu aberto na Serra do Navio;
- Estrada de Ferro do Amapá, com cerca de 194 km, construída entre 1954 e 1957;
- Porto de Santana, projetado para navios de até 50 mil toneladas, em plena foz do Amazonas.
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O início das grandes exportações, em 1957, marcou a consolidação de um fluxo contínuo e eficiente, algo raro mesmo para padrões atuais. Trata-se de um exemplo claro de como logística define a viabilidade econômica de projetos minerais.
Beneficiamento e inovação tecnológica como resposta à exaustão
Na fase inicial, o minério era selecionado e blendado para atender especificações comerciais da ordem de 48,5% de Mn. No entanto, à medida que as reservas de alto teor se esgotavam, a ICOMI respondeu com inovação tecnológica, desenvolvendo processos de concentração em meio denso.
Essa decisão técnica permitiu:
- Aproveitamento integral da jazida;
- Implantação de usinas de concentração e pelotização;
- Ampliação significativa da vida útil do empreendimento.
Aqui reside uma lição fundamental: tecnologia de processo é fator decisivo de sustentabilidade econômica em mineração.
Vilas planejadas: um experimento social raro no Brasil
Talvez um dos aspectos mais singulares do projeto tenha sido a implantação das vilas de Serra do Navio e Vila Amazonas. Não se tratava apenas de alojamentos, mas de núcleos urbanos completos, com saúde, educação, saneamento e padrão construtivo elevado.
O índice zero de mortalidade infantil no parto não é um dado trivial — é um indicador de qualidade raríssimo para a época. A Serra do Navio tornou-se um caso emblemático de company town bem-sucedida, frequentemente citada em estudos urbanísticos e sociais.
Encerramento da operação e o desafio do pós-mineração
A saída da Bethlehem Steel, em 1988, e o encerramento das operações, em 1997, marcaram o fim de um ciclo. Do ponto de vista ambiental, houve recuperação das áreas mineradas, com reflorestamento e formação de lagos hoje integrados ao turismo local.
Do ponto de vista econômico e institucional, a ICOMI buscou mitigar impactos com a implantação de novos empreendimentos, como a Brumasa e a AMCEL, atualmente sob controle de grupos japoneses.
Nem todas as heranças, porém, foram preservadas. A Estrada de Ferro do Amapá, que poderia ter se tornado um eixo permanente de desenvolvimento regional, foi abandonada. O Porto de Santana, por sua vez, sofreu colapso estrutural em 2013 e ainda carece de plena reconstrução.
A história da Serra do Navio demonstra que a mineração, quando bem planejada, pode ser indutora de desenvolvimento, mas também evidencia que o pós-mineração exige governança contínua. Infraestrutura não se preserva sozinha, e legados só permanecem quando há gestão pública e privada responsável.
Mais do que nostalgia técnica, este caso deve servir como referência crítica para os projetos minerais do presente e do futuro.
Vilas com padrão urbanístico e social (Serra do Navio e Vila Amazonas)




