Cum Mente et Malleo: a Engenharia de Minas entre a herança de Ouro Preto e o futuro dos minerais críticos

Cum Mente et Malleo: a Engenharia de Minas entre a herança de Ouro Preto e o futuro dos minerais críticos

Da fundação da Escola de Minas de Ouro Preto, em 1876, à corrida global por minerais críticos: a trajetória de uma profissão que nunca parou de se reinventar.

“Com a mente e com o martelo. Uma frase, dois instrumentos, uma profissão inteira.”

Não há transição energética, não há inteligência artificial, não há futuro sem quem souber transformar rocha em valor.

A história da Engenharia de Minas é a história da forma como a humanidade transforma recursos geológicos em valor para a sociedade. Primeiro foi preciso descobrir esses recursos. Depois, compreendê-los cientificamente. Em seguida, industrializá-los em escala. Hoje, o desafio é transformá-los em valor sustentável, para quem produz e para quem depende dessa produção.

Isso se repete, com nomes e datas diferentes, desde o período colonial até hoje. Celebrar o Dia do Engenheiro de Minas é reconhecer os homens e mulheres que escreveram, e seguem escrevendo, essa história.

Antes de Ouro Preto: quando a riqueza existia, mas faltava a ciência

A história da mineração brasileira não começou com a Engenharia de Minas.

Muito antes da criação das primeiras escolas, o ouro e os diamantes já impulsionavam a ocupação do território, financiavam o Império Português e transformavam a economia colonial. Mas aquela mineração era, sobretudo, empírica. A abundância de recursos contrastava com a escassez de ciência, tecnologia e profissionais especializados.

No início do século XIX surgiram as primeiras tentativas de mudar esse cenário. A criação da Academia Real Militar, em 1810, introduziu o ensino sistemático das ciências exatas e da mineralogia. Foi nessa época que se destacou José Bonifácio de Andrada e Silva, mineralogista respeitado internacionalmente muito antes de liderar o processo de Independência do Brasil. Sua visão já era moderna: a riqueza mineral só geraria prosperidade duradoura se fosse explorada com ciência, planejamento e profissionais brasileiros bem formados.

Essas ideias prepararam o terreno para a transformação que mudaria, de vez, a mineração nacional.

1876: nasce uma escola, nasce uma profissão

Em 12 de outubro de 1876, sob a liderança do cientista francês Claude Henri Gorceix e com o apoio decisivo do imperador Dom Pedro II, foi fundada a Escola de Minas de Ouro Preto.

A origem dessa fundação já revela o espírito da profissão. Em viagem à Europa, Dom Pedro II pediu ao geólogo francês Auguste Daubrée um estudo sobre as melhores formas de desenvolver a exploração mineral no Brasil. Daubrée, recém nomeado diretor da Escola de Minas de Paris, não pôde aceitar o convite, mas indicou um jovem cientista de sua confiança: Gorceix. Ao chegar ao país, Gorceix percorreu o território em busca do local ideal para instalar a escola e encontrou em Ouro Preto o que descreveu, em relatório ao Imperador, como uma região onde “em muito pequena extensão de terreno pode-se acompanhar a série quase completa das rochas metamórficas que constituem grande parte do território brasileiro”.

Mais do que criar um curso superior, Gorceix implantou um novo modelo de ensino. Inspirado nas tradicionais Écoles des Mines francesas, substituiu a formação puramente teórica por uma pedagogia baseada na integração entre laboratório, campo, observação da natureza e experimentação. O estudante deveria compreender a geologia diretamente na rocha, interpretar o depósito mineral como um sistema complexo e transformar conhecimento científico em solução prática.

Nascia ali a Engenharia de Minas moderna no Brasil, e nascia também o primeiro estágio da nossa profissão: o engenheiro como explorador e observador da natureza, alguém que precisava, antes de tudo, encontrar e descrever o que a terra escondia.

O lema Cum Mente et Malleo sintetizava essa filosofia. O martelo representa o trabalho, a observação, o contato direto com a realidade geológica. A mente simboliza a ciência, o raciocínio crítico, a capacidade de transformar informação em conhecimento. Poucas profissões dependem tanto desse equilíbrio.

Da Escola de Minas à institucionalização da Engenharia brasileira

O legado de Ouro Preto ultrapassou rapidamente seus muros.

Os engenheiros ali formados ajudaram a estruturar o Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil e contribuíram para o desenvolvimento da siderurgia, da pesquisa mineral, das ferrovias, da industrialização e das grandes empresas que moldaram a mineração brasileira ao longo do século XX. Nesse período, o engenheiro de minas deixou de ser apenas explorador e passou a ser também projetista, planejador e gestor da produção, ocupado em levar um depósito descoberto até a escala industrial.

A partir do núcleo pioneiro de Ouro Preto, o conhecimento se espalhou pelo país, consolidando uma rede nacional de excelência. UFOP, UFMG, USP, UFRGS, UFPA, UFPE, UFG, UNIFESSPA, IFMG e tantas outras instituições seguem formando gerações de profissionais dedicados à exploração racional dos recursos minerais brasileiros.

Paralelamente, consolidava-se a regulamentação da profissão. Em 11 de dezembro de 1933, ainda no primeiro governo de Getúlio Vargas, o Decreto nº 23.569 regulamentou o exercício da engenharia e criou o Conselho Federal e os Conselhos Regionais, origem do atual sistema Confea/Crea.

A escolha do dia 10 de julho para celebrar a profissão está tradicionalmente associada ao nascimento de Pedro Demóstenes Rache, engenheiro de minas formado em Ouro Preto e idealizador e primeiro presidente do Confea. Há, nessa escolha, uma simetria quase poética. A data de maior celebração da categoria não marca um decreto isolado, mas o nascimento de um homem que ajudou a dar à engenharia brasileira a estrutura institucional que ela carrega até hoje. De Gorceix, que ensinou a pensar com rigor científico diante da rocha, a Rache, que ajudou a construir a espinha dorsal regulatória da profissão, a Engenharia de Minas brasileira se firmou em dois lugares ao mesmo tempo: na sala de aula e na lei.

A profissão que sustenta a sociedade moderna

Existe uma percepção equivocada de que a mineração produz apenas minério. Na realidade, ela produz as bases materiais da civilização.

Não existem hospitais sem aço. Não existem fertilizantes sem minerais. Não existem pontes, ferrovias, edifícios, satélites, computadores, smartphones, turbinas eólicas, painéis solares ou veículos elétricos sem mineração.

Muito antes de qualquer produto tecnológico chegar às mãos do consumidor, ele passou pelas mãos de um geólogo, de um engenheiro de minas, de um engenheiro metalurgista e de tantos outros profissionais que transformam recursos naturais em desenvolvimento humano. A mineração segue sendo o primeiro elo de praticamente todas as cadeias produtivas da economia moderna.

O Brasil não é apenas um país com potencial geológico. É protagonista mundial em minério de ferro, um dos principais produtores globais de nióbio, um player relevante em bauxita e manganês, e detém potencial reconhecido em grafita e terras raras. Essa posição carrega uma responsabilidade que vai além das nossas fronteiras: parte relevante das cadeias de suprimento globais depende do que sai do subsolo brasileiro.

O maior desafio da nossa geração

Durante boa parte do século XX, o desafio era aumentar a produção. No século XXI, o engenheiro de minas passou a integrar geologia, geotecnia, geometalurgia, economia mineral, ciência de dados, automação e governança em um mesmo processo de decisão, um trabalho que deixou de ser só técnico para se tornar também estratégico.

Estamos explorando depósitos cada vez mais profundos, mais complexos e com teores progressivamente menores. Minérios mais pobres significam maior movimentação de material, maior consumo de energia, maior demanda por água, maior geração de rejeitos, maior complexidade no beneficiamento e investimentos muito mais elevados para produzir a mesma quantidade de metal.

Há uma contradição no centro do nosso tempo: o minério está ficando pior justamente quando a sociedade passa a precisar de muito mais minério. Essa frase resume, sozinha, boa parte da pauta contemporânea da mineração: minerais críticos, transição energética, água, energia, rejeitos, capital investido, produtividade, inovação.

Durante mais de um século, a Engenharia de Minas buscou produzir mais minério. A partir deste século, ela precisa produzir mais valor usando cada vez menos recursos naturais por tonelada produzida. Essa é, talvez, a maior transformação conceitual da profissão desde sua criação.

Na prática, isso aparece em frentes que já fazem parte do dia a dia de quem trabalha em mina: a segurança geotécnica das estruturas de disposição de rejeitos, a gestão eficiente da água, a redução da intensidade energética e a descarbonização das operações, passando pelo reaproveitamento de rejeitos e pela economia circular, até a digitalização e a inteligência artificial aplicadas à mina. Há também um desafio econômico direto, menos falado mas igualmente decisivo: a competitividade futura da mineração brasileira vai depender da capacidade de nossos engenheiros de reduzir CAPEX, aumentar produtividade, elevar recuperação metalúrgica e usar melhor cada litro de água e cada unidade de energia consumida por tonelada produzida.

E há um desafio que já não é apenas técnico nem apenas econômico. A sociedade não avalia mais a mineração só pelos recursos que ela produz, mas também pela forma como produz. Segurança, transparência, relacionamento com comunidades e respeito ao meio ambiente deixaram de ser complemento da engenharia e passaram a integrar o próprio conceito de excelência técnica. A licença para operar tornou-se, para qualquer mineradora, um ativo tão relevante quanto a qualidade da sua reserva.

O século dos minerais críticos

Ao mesmo tempo em que o mundo busca reduzir sua dependência dos combustíveis fósseis, cresce rapidamente sua dependência dos minerais.

Lítio, cobre, níquel, grafita, terras raras, manganês e nióbio se tornaram recursos estratégicos para a transição energética, para a eletrificação da mobilidade, para a digitalização da economia e para a segurança das cadeias globais de suprimentos.

Transformar o potencial geológico brasileiro em desenvolvimento sustentável vai depender menos da riqueza do subsolo e muito mais da qualidade de nossas instituições, da segurança jurídica, da inovação tecnológica, da pesquisa científica e da competência de nossos engenheiros.

A riqueza mineral é um patrimônio da natureza, mas o valor que ela gera, econômico e social, é uma construção da inteligência humana.

Uma homenagem

Depois de décadas dedicadas à mineração, sigo convencido de que escolhi uma das profissões mais fascinantes e estratégicas para o desenvolvimento humano.

Neste Dia do Engenheiro de Minas, minha homenagem vai aos professores que formaram gerações de profissionais, aos pesquisadores que ampliam continuamente as fronteiras do conhecimento, aos estudantes que representam o futuro da profissão e aos colegas que enfrentam, todos os dias, os desafios das minas, dos laboratórios, dos escritórios, das universidades e dos órgãos públicos.

Que sigamos fiéis ao legado iniciado por José Bonifácio, consolidado por Claude Henri Gorceix, estruturado por Pedro Demóstenes Rache e fortalecido pelas escolas de engenharia de todo o país.

Talvez essa seja a maior lição deixada por Gorceix. O martelo continua indispensável. Mas nunca dependemos tanto da mente. Porque o futuro da mineração não será determinado apenas pela riqueza dos depósitos que descobrirmos. Será determinado pela inteligência com que soubermos transformá-los em prosperidade para a sociedade.

Feliz Dia do Engenheiro de Minas.

Cum Mente et Malleo. Ontem, hoje e sempre.

Antonio Neves Santana Engenheiro de Minas (UFMG, 1983), MSc, Conselheiro Consultivo de Empresa e Consultor Independente de Mineração e Projetos