Tragédia de Mariana: Análise técnica e os alertas da engenharia geotécnica

O rompimento das barragens de Fundão e Santarém, em Mariana (MG), permanece como um divisor de águas na mineração brasileira. O desastre, que liberou cerca de 60 bilhões de água e rejeitos de minério de ferro, não apenas devastou o ecossistema do Rio Doce, mas colocou a engenharia geotécnica global em estado de alerta máximo.

Impacto Ambiental e Social: Dimensões do Desastre

Considerado o maior desastre ambiental da história do Brasil, os números preliminares do Ibama desenharam um cenário catastrófico:

  • Perdas Humanas: 17 óbitos confirmados.
  • Extensão: A lama percorreu mais de 600 km pelo Rio Doce até atingir o litoral do Espírito Santo.
  • Danos à Flora: Destruição de 1.469 hectares de vegetação, incluindo Áreas de Preservação Permanente (APP).
  • Recuperação: Estimativas indicam que as ações de reparação podem se estender por mais de uma década.

Recomendações Técnicas e Sinais de Alerta

Relatórios de auditoria realizados entre 2013 e 2015 pela consultoria Vogbr já apontavam que a estabilidade da Barragem de Fundão dependia do cumprimento de recomendações rigorosas. Especialistas, como o geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos, destacam que a barragem apresentava sinais de:

  1. Erosão Superficial: Deficiência no sistema de drenagem e falta de proteção nos taludes.
  2. Percolação Interna: O aparecimento de surgências indicava que a água estava atravessando a estrutura de forma inadequada.
  3. Falhas Geométricas: Necessidade de ajuste na declividade das bermas e reparo de trincas em canaletas.

O Desafio da Água: A Visão do Aterro Controlado

Para o engenheiro geotécnico Cláudio Casarin (Arcadis), o termo técnico ideal para essas estruturas é aterro controlado. O grande vilão, segundo ele, não é o rejeito em si, mas a gestão da água dentro da massa:

  • Pressão de Água: O lançamento de rejeitos pouco permeáveis eleva o lençol freático interno, criando superfícies de escorregamento “lubrificadas”.
  • Drenagem Crítica: Para garantir a estabilidade, é indispensável a instalação de drenos sob o aterro e sistemas de “espinha de peixe” (valetas drenantes) ao longo da altura da estrutura.
  • Fator de Segurança (FS): Casarin alerta que muitas mineradoras operam com um fator de segurança próximo a 1,1 (mínimo para obras temporárias), quando o correto para estruturas permanentes e de alto risco deveria ser, no mínimo, 1,5.

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“Em obras desse tipo, não pode haver preocupação com custos, mas sim com a segurança.” — Cláudio Casarin.


Legislação e Governança

A tragédia evidenciou a fragilidade na aplicação da Lei 12.334/2010, que estabelece a Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB). O cumprimento rigoroso dos critérios de engenharia e a fiscalização ativa das recomendações de auditores independentes surgem como a única via para evitar que novas estruturas de contenção falhem.