Análise de dados e atuação da medicina do trabalho reduzem riscos de fadiga em 94%

Análise de dados e atuação da medicina do trabalho reduzem riscos de fadiga em 94%

A fadiga representa um risco significativo no setor de mineração. Os operadores de caminhão realizam atividades monótonas e repetitivas, associadas a uma jornada de trabalho com revezamento de turno e horário noturno, e a combinação desses elementos cria o ambiente propício para ocorrer a fadiga.

De acordo com a Norma Regulamentadora NR-4, que classifica as atividades econômicas de acordo com o grau de risco, a mineração possui risco 4, sendo este o grau mais alto da escala presente na norma, que varia do grau de risco muito baixo (1) ao grau de risco alto (4). Através dessa escala é possível perceber que existem vários riscos inerentes a esse tipo de operação, sendo que um dos principais é a fadiga/sonolência.

A fadiga associada à condução de um caminhão em movimento tem potencial para gerar acidentes graves, podendo resultar inclusive em fatalidade. Por esses motivos, as empresas de mineração têm investido em sistemas de monitoramento de fadiga para minimizar esse risco.

O sistema de monitoramento por si só, apenas alerta a ocorrência dos eventos, por isso, a Comipa implementou uma análise de dados e uma gestão humanizada, visando agir preventivamente e evitar acidentes. O projeto da Comipa tem como objetivo principal reduzir a frequência dos eventos de fadiga mensais. Para isso, foram definidos os seguintes objetivos específicos: reduzir a quantidade de eventos de fadiga; identificar os turnos e horários com maior frequência de eventos; identificar e monitorar os operadores com maior incidência de eventos; desenvolver uma metodologia para a gestão dos eventos de fadiga; implementar ações preventivas em relação a fadiga, reduzir a quantidade de eventos de fadiga a longo prazo. O objetivo geral deste trabalho é prevenir acidentes relacionados à fadiga.

SOBRE A METODOLOGIA

O sistema de monitoramento de fadiga utiliza uma câmera (sensor) para monitorar os olhos do operador. Sempre que um operador permanece com os olhos fechados por mais de 1,5 segundos, o sistema gera alertas sonoros na cabine do caminhão e de vibração no banco do motorista para despertar o operador. Imediatamente, também é gerado e enviado um vídeo do evento para uma central, onde o evento é analisado e classificado, podendo ou não ser considerado como fadiga.

Através da ferramenta Microsoft Power BI foi criado um relatório para analisar os eventos confirmados de fadiga. A partir da análise dos dados gerados, foi possível identificar uma série de informações importantes para compreender melhor o problema. O sistema permitiu identificar os horários com maior incidência de eventos, os turnos, os dias em relação à jornada de trabalho e, principalmente quais operadores apresentam o maior número de eventos.

Os sistemas tecnológicos de monitoramento de fadiga detectam e mitigam a fadiga que já ocorreu, mas não necessariamente previnem ou mitigam a ocorrência de novos eventos de fadiga. A Comipa compartilha desse entendimento de que apenas a tecnologia não é suficiente.

Segundo a companhia, a gestão humanizada, as ciências médicas e a análise de dados são essenciais para minimizar a ocorrência de eventos de fadiga.

Com base nas informações sobre os operadores que concentravam a maior quantidade de eventos, foi criada uma sistemática para entender e tratar a causa raiz do problema.

Os operadores reincidentes são encaminhados ao coordenador de operação de mina para discutir os eventos. Em seguida, são direcionados ao setor de medicina, onde a médica do trabalho, juntamente com a assistente social da empresa, busca entender caso a caso o motivo pelo qual esses operadores concentravam a maioria dos eventos.

Eles avaliaram se o problema estava relacionado ao sono, questões pessoais, fatores externos, entre outros. Contudo, por questões legais, esses motivos foram mantidos em sigilo.

Foi então que o setor de medicina desenvolveu um fluxograma padrão de atendimento à fadiga, além de outras ações importantes, como a implantação de uma sistemática nos exames periódicos, utilizando os questionários de qualidade do sono de EPWORTH e a escala de fadiga de CHALDER. Ao longo do ano, o setor de medicina realiza diálogos diários de segurança (DDS) e campanhas para conscientizar os operadores sobre a higiene do sono.

Durante os turnos, a operação de mina e a tecnologia de mina trabalham de forma integrada para prevenir a ocorrência da fadiga. O líder de operação, durante o DSS, alerta os operadores sobre a importância de informá-lo assim que sentirem os primeiros sinais de fadiga.

Dessa forma, o líder pode interromper a atividade do operador para que ele descanse antes que o evento de fadiga ocorra. Além disso, o controlador de frota envia mensagens pelo rádio de comunicação ao longo do turno, reforçando aos operadores que procurem o líder ao menor sinal de fadiga.

Outra ação importante implementada pela empresa foi com relação à “parada contra o sono”. Entre 05:30 e 05:45 da manhã, a operação era interrompida com o objetivo de permitir que os operadores descansassem. No entanto, durante um projeto de Lean Six Sigma, foi observado que, após essa parada operacional, os eventos de fadiga não diminuíam; pelo contrário, aumentavam. Foi realizado um teste durante 90 dias, no qual a parada operacional passou a ser facultativa. Os eventos de fadiga no horário das 06:00 da manhã reduziram se em 35%, comprovando que a “parada contra o sono” não auxiliava no combate à fadiga.

RESULTADOS

Desde 2021, a Comipa tem conseguido reduzir drasticamente a quantidade de eventos de fadiga registrados anualmente. Em 2024, foram registrados 26 eventos de fadiga, uma redução de 25% em relação a 2023, quando foram registrados 35 eventos. Considerando o início do projeto em 2021, a empresa conseguiu reduzir a incidência de fadiga em 94%. Esse resultado é fruto de um trabalho de melhoria contínua entre as áreas de medicina, operação e tecnologia de mina.

Em 2024, a companhia também atingiu dois recordes importantes. De forma geral, durante 69 dias consecutivos, não foram registrados eventos de fadiga, e a Turma B conseguiu ficar 177 dias sem eventos de fadiga.