Bemisa aparece como favorito na compra do aporto Sudeste e Mineração Morro do Ipê
A Bemisa, mineradora do banqueiro Daniel Dantas, dono do grupo Opportunity, é forte candidata a fechar a compra do Porto Sudeste e da Mineração Morro do Ipê, ativos colocados à venda pelo fundo asiático Mubadala e a trading de commodities holandesa Trafigura. A empresa firmou contrato de confidencialidade (Non-Disclousure Agreement-NDA) com as duas controladoras, abrindo caminho para o processo de due diligence (auditoria) dos ativos. O negócio envolvendo os dois ativos têm valor de venda na faixa de US$5 bilhões e alguns grupos demonstraram interesse em avaliar os ativos. Três grupos já assinaram o NDA, incluindo a Bemisa e a brasileira Vale. O ativo também pode interessar a nomes como o fundo australiano Macquarie, focado em infraestrutura, além de mineradoras chinesas e investidores árabes.
O Porto Sudeste é uma infraestrutura logística de classe mundial, dedicada ao carregamento eficiente de granéis sólidos, com destaque para o minério de ferro, e de granéis líquidos, apoiando a logística integrada das operações de óleo dos campos do pré-sal. Atua com forte compromisso com a sustentabilidade e operações na preservação ambiental, no desenvolvimento social e na condução ética dos negócios. Com infraestrutura moderna e equipamentos de última geração, o terminal é considerado um dos mais eficientes do Brasil nas operações de granéis sólidos e líquidos. O projeto do empresário Eike Batista, dono do grupo EBX, entrou em operação em meados de 2015. Desde sua inauguração, opera com capacidade atual para movimentar até 50 milhões de toneladas de granéis sólidos e líquidos por ano, com licença de expansão para até 100 milhões de toneladas/ano. No entanto, ainda opera com pouco mais de 40% da capacidade instalada.

A Morro do Ipê, que fica em Brumadinho (MG), no Quadrilátero Ferrífero, opera as minas de minério de ferro Ipê e Tico-Tico. Ambas pertenciam à MMX Sudeste Mineração, de Eike, e há pouco mais de uma década foram vendidas para Mubadala e Trafigura para quitar dívidas do empresário. A mina opera desde maio de 2017 processando estoques de minério de ferro.
Já a mina Tico-Tico desempenha um papel estratégico no desenvolvimento socioeconômico da região. Atualmente, emprega diretamente 857 colaboradores e gera 1.693 postos de trabalho indiretos, sendo que mais de 50% desses profissionais são moradores locais. Essa política de contratação fortalece a economia regional, impulsionando a geração de renda e oportunidades. A previsão é operar ao ritmo da plena capacidade a partir do primeiro trimestre de 2026, de acordo com documentos da mineradora. Em 2024, gerou receita de R$970 milhões, com produção e venda de 3,5 milhões de toneladas. A mina Tico-Tico, quando em plena operação, terá capacidade para fazer 6 milhões de toneladas por ano, de acordo com a empresa, processando minério itabirito e gerando material pellet feed de alto teor de ferro.
Entre os anos de 2021 e 2023, a Mineração Morro do Ipê investiu R$1,3 bilhão no Projeto Tico-Tico, sendo que mais de 80% desse montante foi destinado a serviços contratados em Minas Gerais. A ampliação da capacidade produtiva da Mina Tico-Tico e a extensão de sua vida útil, consolida a posição da Mineração Morro do Ipê entre as líderes do setor. Entre as iniciativas futuras, destacam-se a adoção de tecnologias emergentes, como a mineração autônoma, visando a ter maior segurança e eficiência operacional, além da implementação de soluções baseadas em inteligência artificial para otimização dos processos de beneficiamento.
Quem é a Bemisa
Braço de mineração do Opportunity desde 2007, a Bemisa (Brasil Exploração Mineral S/A) opera as minas Baratinha e Mongais no município de Antônio Dias (MG) e está investindo R$ 100 milhões em uma nova mina, Pedra Branca, em João Monlevade. A capacidade de produção da empresa vai crescer mais de 50%, para até 7 milhões de toneladas por ano de produto acabado tipo “pellet feed”, com teor de 65%, conforme informação da revista especializada Brasil Mineral.
O projeto do dono do Opportunity, em Minas Gerais, com os ativos e reservas que detém atualmente, é de alcançar uma produção de 10 milhões de toneladas por ano de minério de ferro até 2030, de acordo com informações de publicações especializadas.
A aquisição dos dois ativos daria ao grupo de Daniel Dantas uma operação de mineração de ferro e portuária robusta, com escoamento pela ferrovia da MRS Logística e acesso até o Porto Sudeste. A Bemisa passaria a produzir em torno de 15 milhões de toneladas por ano e teria no terminal, localizado na Ilha da Madeira, na Baía de Sepetiba, no município de Itaguaí (RJ), uma porta de saída para o mercado externo.
Obstáculos
Alguns entraves cercam o processo de venda. A Mineradora Morro do Ipê, por exemplo, tem de resolver o problema de três barragens de rejeitos sob a sua concessão para atender a legislação da ANM (Agência Nacional de Mineração). A agência apertou as exigências após o rompimento das barragens de rejeitos de Mariana (Fundão, da Samarco) e Brumadinho (da Vale), dois grandes desastres ambientais. O custo de descaracterização das três barragens, segundo especialistas, é elevado.
Outro entrave é que o processo de diligência por potenciais interessados em levar o ativo deve ser longo pelo o porto ser integrado com a mineradora em Minas Gerais. Há a chance de a venda ser separada, com um comprador ficando com o porto e outro com a mina, mas interlocutores observam que o mais provável é a venda em conjunto.
A mineradora foi fundada em 2016 e em 2017 adquiriu ativos de mineração em um processo de recuperação judicial. Dentre os ativos adquiridos havia, ainda, 3 antigas barragens de rejeito que já se encontravam desativadas. A companhia investiu em estudos geotécnicos e na instrumentação dessas estruturas de forma a identificar os seus métodos construtivos e as ações necessárias para a descaracterização.
Por sua vez, o Porto Sudeste tem uma dívida, até 2037, de R$7,5 bilhões, carregada desde a construção do terminal. Os principais credores são instituições financeiras locais e estrangeiras, com destaque para Bradesco (R$ 4,5 bilhões), Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social -BNDES (1,1 bilhão), Bradesco-repasses do BNDES (R$ 492,5 milhões) e Deutsche Bank/Natixis/BTG (R$ 490 milhões). No curto prazo (2025), são vários bancos: Citibank (R$407 milhões), Itaú (R$293 milhões), ABC Brasil (R$124 milhões), Santander (R$80 milhões) e outras instituições.
A construção do Porto Sudeste, a partir de 2010, foi considerada importante para atender as pequenas e médias mineradoras de ferro de Minas Gerais sem terminal portuário. Mubadala e Trafigura adquiriram a empresa em fevereiro de 2014, herdada da conversão das dívidas de Eike em ações. O início da operação comercial ocorreu em janeiro de 2016.
Até 30 de setembro do ano passado, a empresa movimentou 20,5 milhões de toneladas de minério de ferro. Atualmente tem contratos para exportação de minério da Itaminas, AVG e J. Mendes. O terminal também está apto a operar granéis líquidos. A Porto Sudeste do Brasil S.A. registrou receita líquida de vendas de bens e serviços de R$3,46 bilhões no primeiro semestre de 2025, de acordo com demonstrativo financeiro da empresa. No período, teve prejuízo de R$285,4 milhões. Até 30 de junho do mesmo ano, a companhia tinha prejuízos acumulados de R$9,64 bilhões e apresentava patrimônio líquido negativo de R$7,26 bilhões.




