Especialista afirma que “consequências precisam ser monetizadas”

Augusto Diniz – Belo Horizonte (MG)

Especialistas voltaram a debater formas de operar e gerir barragens de rejeitos no País, pós-tragédia
de Mariana, em 2015. No início do ano, o governo de Minas Gerais promoveu na sede do CREA-MG, em Belo Horizonte, o I Seminário Internacional de Tecnologia e Gestão de Barragens.

De acordo com Germano Gomes Vieira, secretário de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento
Sustentável de Minas Gerais, o tema avança em duas frentes: monitoramento e acompanhamento dos órgãos públicos e da sociedade dos empreendimentos que operam barragens; e a adoção de tecnologias para composição e aproveitamento dos rejeitos.

O engenheiro André Pacheco de Assis, do departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Brasília (UNB), que fez palestra de abertura do evento, avaliou a necessidade premente de se adotar métricas de risco individualizadas para cada barragem. “As consequências precisam ser monetizadas no projeto de uma barragem”, avalia.

Segundo ele, é necessário não somente fazer “abordagem determinística” (aquelas relacionadas aos
parâmetros de construção e operação de barragem, como uma ciência exata), mas também propor uma “abordagem probabilística”, quantificando as consequências de um possível problema na barragem, para se tê-las mais seguras. “Aplicar a metodologia de gestão de risco é fundamental”, diz.

O professor explica que na engenharia tradicional, existe um pré-conceito generalizado de exatidão,
com abordagem determinista, parâmetros e carregamentos assumidos regularmente. André conta que as incertezas já são incorporadas em margens de segurança na execução dos projetos.

No entanto, a gestão de riscos em engenharia passou a ser aplicada a partir da década de 1990 no mundo, denominada por ele de nova engenharia. As incertezas e as chances de falhas que tendiam a ter um foco na segurança, passam a ser avaliadas suas consequências de impactos e danos na sociedade pós-construção da barragem, e a integrar esse conceito de risco à engenharia.

NOVA ENGENHARIA

A evolução desse enfoque de engenharia, segundo André, reúne o custo-benefício, impacto ambiental e gestão de risco da estrutura. Assim, o que seria uma abordagem determinística, com parâmetros de projeto assumidos de forma constantes e resultado calculado único, dá lugar à abordagem probabilística, com parâmetros de projeto variáveis.

Nessa análise apresentada pelo acadêmico, o evento de risco, que é o evento incerto que, caso ocorra, pode trazer impactos fora do padrão do comportamento esperado na operação da barragem, é o grau de probabilidade de falha, levando a necessidade profunda de análise da mesma.

Os principais eventos de risco em barragens relacionados por ele são geotécnicas (galgamento, instabilidade de taludes, piping, liquefação) e na estrutura de concreto (deslizamento pela fundação, tombamento, capacidade de carga).

André Pacheco de Assis afirmou no seminário que, de ordem prática, cada evento de risco identificado deve ser anotado no registro de riscos, e que deve ser nomeado um controlador desse risco, o responsável pelo acompanhamento do risco e o dono do risco, que possui autoridade para gerenciá-lo.

Na quantificação das consequências futuras em uma estrutura, os impactos possíveis e as consequências do evento devem ser relacionados, incluindo do empreendimento em si, dos danos sociais a terceiros (edificações, feridos, mortos etc.), danos à infraestrutura pública (serviços, transporte etc.), danos ambientais, entre outros.

Estudos antecipados devem definir mapas de inundação, impacto hidrodinâmico e tempo de chegada da inundação, utilizando modelo digital do terreno a jusante, análise de rugosidade da superfície, viscosidade do fluido do reservatório, e levantamento de populações, edificações, bens, infraestrutura e patrimônio histórico, social, cultural e ambiental de possível atingimento.

Nas considerações finais, o professor esclarece que gestão de riscos de uma única estrutura pode ser feita por qualquer metodologia, mas a ferramenta de tomada de decisão requer quantificação (monetização) dos riscos.

Além disso, a metodologia de gestão de risco deve valorizar a boa engenharia de projeto, construção e operação, integrando na estrutura da empresa e promovendo quebra de paradigmas (critérios de projeto, seguros, cauções etc.), conclui o especialista.

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