20 mil léguas submarinas da mineração começa com bandeira canadense

Mar de Bismarck terá primeira lavra em escala comercial no fundo do mar

Por Vinícius Costa

A criação de novas tecnologias para mineração, desde sistemas autômatos ou controlados a distância, assim como máquinas que juntam em uma só as funções que antes eram exercidas por diversos equipamentos, estão levando a mineração para o nível subaquático. O que antes era ficção científica e parecia vir direto dos livros de Júlio Verne, está a menos de cinco anos de sair da ficção com o auxílio da canadense Nautilus Minerals e a primeira operação em escala comercial no fundo do mar para extração de ouro e cobre.

Essa empreitada da mineração ao leito marinho se dá em um momento no qual a queda do teor mineral em minas terrestres se acentua, além do preço das commodities constantemente, promovendo no setor uma guerra em prol do aumento de produtividade e redução de custos. Contudo, ambientalistas estão preocupados com o impacto que pode ser causado com o início desse tipo de operação, como é o caso da mineradora canadense, a qual após anos de tentativas, em abril de 2014 assinou um acordo com o governo da Papua Nova Guiné para extrair cobre e ouro de suas águas.

De acordo com a Autoridade Internacional de Leitos Marinhos (ISA, na sigla em inglês), uma agência regulatória criada em 1994, a empresa planeja começar a testar seu equipamento no próximo ano em águas europeias e a preocupação de críticos está no fato de ela começar a operar sem um acompanhamento regulatório abrangente e uma avaliação ecológica mais profunda. Os problemas podem ser diversos, pois a movimentação do solo marinho aumentaria o particulado suspenso e reduziria a concentração de oxigênio em alguma áreas extinguindo a vida marinha naquele local ou até mesmo pondo em extinção espécies essenciais para o ecossistema como um todo.

Cada país é livre para escolher sua própria regulamentação, e as permissões no Pacífico Sul já compõem uma área do tamanho do Irã, de acordo com a Campanha sobre a Mineração em Águas Profundas, uma coalizão internacional de ONGs.

Isso levanta suspeitas dos ambientalistas se cada nação terá consciência sobre as regras gerais desses termos, pois é sabido que quando se trata do oceano, uma catástrofe ambiental afeta o ecossistema mundial como um todo, o que pôde ser comprovado no incidente da gigante britânica do petróleo BP, quando em 2010, a plataforma Deepwater Horizon, no Golfo do México, provocou a pior tragédia ambiental dos Estados Unidos. O ocorrido ocasionou bilhões de dólares de prejuízo à petroleira em custos operacionais e multas do governo norte americano e acarretou na morte de aproximadamente seis mil tartarugas (de cinco espécies, todas ameaçadas de extinção), 26 mil mamíferos marinhos e 82 mil aves marinhas.

Contudo, no caso da Nautilus, a empresa está certa de que a operação não irá danificar corais ou cardumes, por se tratar de apenas uma única mina. No entanto, cientistas ressaltam que outras empresas internacionais têm pedidos de permissão para mineração pendentes ao longo do Pacífico Sul e a maior preocupação diz respeito aos impactos da abertura de múltiplas minas na mesma região, ao longo de um curto período de tempo, podendo causar danos permanentes se não houver suficiente conhecimento ambiental sobre a capacidade daquele ecossistema para se recuperar.

Além da Nautilus, outras empresas pretendem iniciar atividades mineiras sob as águas, inclusive uma de origem neozelandesa que está avaliando a visando a produzir areia ferrosa e fosfato.

Depósito Solwara

Denominado Solwara 1, o projeto da Nautilus Minerals pretende extrair minérios sulfetados que se acumulam ao redor de orifícios no leito marinho onde fluidos quimicamente ricos vazam para o oceano a temperaturas próximas de 537 °C. A empreitada planeja escavar o leito marinho com uma máquina controlada remotamente de cerca de 8 metros de altura, 12 m de largura e 16 metros de comprimento. A seguir, o minério será extraído do fundo do oceano por meio de sucção e bombeado até a superfície por uma distância de cerca de 1,6 km.

Conforme estudos nos últimos 24 anos, os recursos indicados do depósito do projeto são de 1,03 milhão t de minério com 7,2 % de cobre, 5 g/t de ouro, 23 g/t de prata e 0,4 % de zinco. A Nautilus também informou a presença de teores de ouro em algumas interceptações, com mais de 20 g/t.

O projeto atual da mina prevê mais de 9.000 cortes, cada um deles com variabilidade de toneladas, teores, energia específica, classificação de recursos e teores modelados, descritos no plano de produção. A mineradora possui ao todo 500.000 km² de território de exploração na Papua-Nova Guiné, em Fiji, em Tonga, em Vanuatu, nas Ilhas Salomão, na Nova Zelândia e no Pacífico oriental.

Equipamentos e operação

O projeto terá três equipamentos autocontrolados no fundo do mar para desagregar e coletar rochas no leito oceânico, antes de bombeá-las como lama através de uma tubulação de 1,6 km até um navio de apoio à produção. A essa profundidade, minerar requer um nível de tecnologia excepcional, visto a pressão atmosférica perto de 16 MPa exercida sobre os equipamentos que foram projetados sob medida pela Soil Machine Dynamics, de Newcastle, Reino Unido.

Os equipamentos responsáveis pela extra&c
cedilão do minério, Seafloor Production Tool (SPT), são três: oAuxiliary Cutter(AC) responsável pela preparação do terreno para a extração da rocha, criando bancadas e pistas para o trabalho das outras máquinas, com peso total de 250 t; oBulk Cutter(BC), mais robusto dos três, pesando 310 t e projetado para ser a máquina de alta produtividade responsável pela produção, extraindo o minério das rochas; e, por fim, oCollecting Machine(CM), mais leve dos três, com 200 t, desenvolvido para coletar o material cortado do fundo do mar e transportá-lo como lama através de bombas internas e um tubo flexível até o sistemaRiser and Lifting System(RALS), que o envia até o navio de apoio na superfície.

Em suma e de forma simples, se comparados aos equipamentos de mineração convencionais, o AC pode se equiparar ao moto-scraper, o BC ao minerador de superfície estilo Marietta e o CM se assemelha ao caminhão ou LHD que transporta o minério até o RALS, espécie de mineroduto vertical. As ferramentas necessárias para a operação estão concluídas em mais de 90 %; e o sistema de condutores e bombas, em mais de 50 %.

Quanto ao navio de produção, a Nautilus Minerals concordou em fretá-lo da Marine Assets Corporation (MAC), de Dubai, por US$ 199.910 por dia, em um contrato de no mínimo cinco anos, sendo que, após esse período, poderá optar por sua compra. A embarcação vai ser usada como uma base flutuante para as operações de explotação de cobre e ouro, primeiro empreendimento de produção mineral polimetálica do mundo feita em depósitos no leito do oceano.

A MAC, que tem sede nos Emirados Árabes, é especializada em embarcações de apoio para a indústrias como a de petróleo. Essa empresa pretende assinar um contrato com a chinesa de Fujian Mawei Shipbuilding para o projeto e construção do navio a ser concluído até o final de 2017.

A embarcação medirá 227 m de comprimento e 40 m de largura, terá acomodações para até 180 pessoas e vai gerar cerca de 31MW de energia. Todos os equipamentos de mineração vão ser instalados durante o processo de construção para minimizar a integração do maquinário após a entrega do navio.

Ele servirá como a primeira base operacional para ajoint venture(Solwara 1JV) a ser formado pela Nautilus com e a Eda Kopa (Solwara), uma subsidiária integral da Petromin PNG Holdings, para atuar no projeto no Mar de Bismarck.

Conforme acordo realizado em abril desse ano, o governo da Papua-Nova Guiné tem uma participação de 15 % do projeto, com a opção de uma participação adicional de 15 %. O primeiro pagamento não reembolsável de US$ 7 milhões foi feito pelo governo à Nautilus, com o restante de sua participação (US$ 113 milhões) depositado recentemente em caução.

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